Rumo a um bom entendimento da conjuntura, por Ricardo Marinho

Imagem da capa: Miniatura medieval do século XII pertencente ao manuscrito de Moralia in Job (Comentários Morais sobre o Livro de Jó), obra de Gregório Magno (540–604, papa da Igreja entre 590 e 604), hoje conservada e digitalizada na Bibliothèque nationale de France, em Paris. A cena representa um dos episódios centrais da história de Jó: o ataque dos caldeus aos seus servos e rebanhos, sob a ação de Satanás, e o momento em que um mensageiro comunica ao patriarca as perdas sofridas. A imagem foi utilizada na capa da edição brasileira de O processo civilizador, vol. 2: Formação do Estado e civilização, de Norbert Elias, publicada pela Zahar.

 

É possível ver um mundo em progresso civilizatório? Parece absurdo fazer essa pergunta justamente quando o crescimento está desacelerando em todos os lugares, quando os instintos primordiais estão ressurgindo e quando todos questionam a desumanização do mundo. E, no entanto, esse é o desafio que enfrentamos aqui e em alhures.

Isso não é fruto de um otimismo irrealista e/ou alheio às dificuldades atuais, mas é simplesmente para lembrar a todas e todos que o pior não está dado nem tampouco o bom esteja certo, além de que as novas gerações poderão construir um mundo que não se reconheça na violência, ódio, conflito e insegurança. Essa é uma possibilidade vista a partir de uma perspectiva de onde devemos tentar analisar metodicamente as condições para um futuro desejável construído com os recursos da virtù.

Acreditava-se que o multilateralismo construído após a criação do Fundo Monetário Internacional (FMI), em 1944, sobreviveria à nova divisão de poderes. Donald Trump não pode ser absolvido de seus caprichos, mas ele faz parte da continuidade da política norte-americana direcionada para a reindustrialização e competição com a China. Não podemos esquecer que o principal plano de investimento da Lei de Redução da Inflação de 2022 (Inflation Reduction Act – IRA), iniciada por Biden, tinha como objetivo já era repatriar as atividades industriais para os Estados Unidos da América. Da mesma forma, é impossível negar o peso norte-americano em tecnologia e gestão financeira mundiais.

O mundo de amanhã será construído em torno de novas formas de cooperação entre aqueles que não desejam mais viver em uma ordem regida por um condomínio de grandes potências. É por isso que o discurso sobre um Sul Global marginalizado é excessivamente fatalista.

Hoje, o Sul Global continua sendo uma potência consumidora e produtora mundial, mas esse status não é bem compreendido e com isso não se aproveita a sua força, sobretudo quando grande parte dos bens e serviços do Sul Global são importantíssimos. Cabe a nós encontrar os caminhos da criatividade. Durante as grandes revoluções industriais e de inovações, as cartas sempre são embaralhadas a cada nova destruição criativa.

Se nos concentrarmos por um momento no Brasil, talvez estejamos testemunhando um fenômeno interessante: o renascimento e o gosto pela invenção científica e técnica. Os exemplos são inúmeros. Urna eletrônica do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e PIX do Banco Central do Brasil (BCB) são paradigmáticos. Para aqueles que a veem como nada mais do que uma declaração de princípios, basta visitar todos os espaços onde florescem ecossistemas inovadores, para melhor compreendê-la. Esta dinâmica está em curso na forma como nós e o mundo funcionamos.

Ocorre que essa reflexão está conectada, obviamente, ao impacto, ainda ingenuamente subestimado, do movimento demográfico. Isso implica um aumento maciço no financiamento da seguridade em todos os seus componentes previdenciário, assistência social e saúde, uma crescente dificuldade em mobilizar as poupanças dos ativos e aposentados e, apesar das aparências, uma dificuldade de compreensão no fluxo de inovação. Um futuro desejável exige, portanto, a promoção e o desenvolvimento da juventude. O Brasil destaca-se dos seus vizinhos pela baixa taxa de atividade dos jovens adultos entre 25 e 30 anos e dos maiores de 60. A resposta envolve necessariamente um investimento maciço na formação do lifelong learning desde o início em tenra idade e no seu desenvolvimento de aprendizagens permanente, cujo progresso recente é decisivo quando se entende o que tem se passado no desenvolvimento das forças produtivas.

Enfim, devemos apontar que o progresso civilizatório é uma conquista planetária que podemos almejar. Os intelectuais oferecem uma definição simples: progresso é o que nos permite alimentar, educar, abrigar e cuidar melhor dos nossos povos. Nada hoje sugere que esses objetivos sejam inatingíveis. A humanidade tem demonstrado repetidamente sua capacidade de resiliência. Precisamos lembrá-lo disso? Quem foi a figura-chave há seis anos e o incrível gênio científico que ajudou a combater a pandemia?

Tal como nos outros aspectos asseverados, os requisitos intelectuais necessários para se libertar de trajetórias passadas não são fáceis. A condição primordial é ter as mentes abertas e nos afastar de tentações nefastas. É precisamente isso que a conjuntura nos indica. Que em 2026 votemos em prol da ciência, do trabalho e da democracia, que são os vetores que nos tem levado a essas conquistas.

7 de junho de 2026

 

Ricardo Marinho é Presidente do Conselho Deliberativo da CEDAE Saúde e professor da Faculdade Unyleya, da UniverCEDAE e da Teia de Saberes.

 

Compartilhe:

Comentários

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Textos relacionados:

Edit Template

Aqui desejamos criar uma cultura política democrática e republicana.

© 2023 Created with Royal Elementor Addons