Por que assistir aos clássicos? #1: Alien, por Rafael Rodrigues.

A pergunta, inspirada no célebre ensaio de Italo Calvino sobre a leitura dos clássicos, também pode ser feita ao cinema. Se há livros que atravessam gerações sem perder sua força, há também filmes que continuam trabalhando em nós muito depois de sua estreia. São obras que não permanecem apenas como lembrança de uma época, mas como experiências ainda capazes de produzir boa reflexão.

Com esta série, o Voto Positivo abre espaço para textos dedicados a esses filmes que não se esgotam em seu próprio tempo. Não se trata apenas de rever obras consagradas, nem de confirmar a importância de títulos já reconhecidos pela crítica ou pelo público mas trata-se, antes, de perguntar o que continuam a dizer, que perguntas ainda nos fazem.

Fiquem agora com o primeiro texto da série, que inaugura também o importante exercício de abrir espaço para que leitores mais jovens experimentem, além da leitura, também a escrita, algo de importância fundamental e ainda mais urgente no nosso tempo e no nosso país.

 

Marcio Junior, Editor do Voto Positivo.

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Alien (1979) é um filme sobre corpos que deixam de pertencer a quem os habita. Tanto a empresa quanto a criatura enxergam a tripulação da Nostromo da mesma forma: algo que pode ser usado, ocupado e descartado. O horror surge da perda de autonomia, da descoberta de que o próprio corpo já não está completamente sob controle.

A Nostromo está longe de ser um espaço de descoberta. Seus tripulantes são trabalhadores, e o filme faz questão de mostrar isso desde o início. Eles discutem pagamento, questionam decisões da companhia e encaram a viagem como parte da rotina. A própria direção reforça essa ideia. Ridley Scott filma a nave como um espaço industrial, cheio de corredores estreitos, vapor, correntes e máquinas constantemente em funcionamento. Em vez de transmitir fascínio pelo futuro, a Nostromo parece um ambiente de trabalho desgastado e impessoal. Antes mesmo do primeiro contato com a criatura, já existe a sensação de que aquelas pessoas ocupam uma posição secundária dentro de uma estrutura maior. O encontro com o alien não altera essa condição. Apenas revela suas consequências mais extremas.

À medida que a história avança, o filme aproxima cada vez mais a companhia e a criatura. A revelação dos interesses corporativos deixa claro que a sobrevivência da tripulação nunca foi prioridade. O alien utiliza corpos para garantir sua reprodução. A empresa está disposta a sacrificá-los em nome de um objetivo considerado mais valioso. Os métodos são diferentes, mas a lógica é parecida. Em ambos os casos, aquelas pessoas deixam de existir como indivíduos e passam a ser definidas pela utilidade que possuem.

É nesse ponto que o ciclo reprodutivo da criatura ganha força. O facehugger invade, utiliza e abandona. O chestburster leva esse processo ao limite. Ridley Scott filma esses momentos de forma direta, sem transformar a violência em espetáculo. O desconforto surge menos da quantidade de sangue e mais da sensação de invasão. A violência não está apenas na destruição física, mas na ocupação do corpo por algo que opera de forma completamente indiferente à vontade de quem o habita. A presença constante de elementos sexuais no design da criatura reforça essa sensação de invasão. Reprodução, violência e perda de autonomia passam a fazer parte da mesma experiência.

Enquanto o restante da tripulação encara a criatura como uma ameaça a ser eliminada, Ash (Ian Holm) demonstra um fascínio quase imediato por ela. Seu interesse não está na destruição que ela causa, mas na eficiência com que cumpre sua função. Quando finalmente entendemos seu papel dentro da missão, companhia e alien deixam de parecer forças separadas. Uma utiliza corpos para obter lucro. A outra utiliza corpos para se reproduzir. Nenhuma delas demonstra interesse pelas pessoas que ficam no caminho.

A tentativa de Ripley (Sigourney Weaver) de manter a quarentena após o retorno de Kane (John Hurt) ganha outro significado conforme a história avança. O que inicialmente parece apenas uma preocupação com protocolos acaba se tornando uma das poucas tentativas reais de impedir a invasão que destruirá a tripulação. Essa postura acompanha a personagem até o final. Em um ambiente onde trabalhadores são tratados como recursos e corpos podem ser transformados em hospedeiros, Ripley insiste em preservar limites que todos os outros acabam permitindo que sejam atravessados. Sua sobrevivência nasce dessa resistência.

Os personagens de Alien descobrem que perder a própria vida é apenas a consequência final de algo que começou muito antes. A companhia já havia transformado aquelas pessoas em recursos. A criatura apenas leva esse processo para dentro do corpo. É dessa convergência entre exploração, invasão e perda de autonomia que o filme extrai sua forma mais duradoura de terror.

 

Rafael Rodrigues é mestrando em Zoologia pelo Museu Nacional/UFRJ.

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