Mas toda a crise, leitor, é uma porta entreaberta para o futuro. E para um futuro nascido de um aprendizado com o mundo e com a nossa própria história. Que, aliás, é uma das mais cosmopolitas, juntando indígenas, africanos, portugueses, japonese, chineses, árabes, turcos, alemães, italianos, espanhóis, pomerânios, e uma infinidade de outros povos. Uma história que, ao longo do tempo, envolveu e misturou todos os diferentes.
BARBOZA FILHO, Rubem. Sinfonia barroca: o Brasil que o povo inventou. Rio de Janeiro: Ateliê de Humanidades Editorial, 2025. p. 26.
A atual conjuntura política mineira exige de todos nós, democratas, coragem para colocar o bem comum e público no coração institucional. A eleição de 2026 torna-se fundamental para que consigamos recompor a mineiridade política, com o centro político democrático de Minas Gerais em sua tradição republicana, pautada em diálogos, negociações e alianças.
Para isso, é importante entender que Minas Gerais não é apenas um estado pêndulo na eleição majoritária, onde se obtém um indicativo preciso de quem pode vencer o pleito presidencial. Minas Gerais possui uma população diversificada de 21.393.441 habitantes, formando um verdadeiro mosaico do Brasil.
A ausência de programas políticos em prol dos interesses tanto da esquerda quanto da direita afasta Minas Gerais de sua tradição republicana. Essa situação se intensificou desde 2015 e se manifestou novamente em 2026, período em que observamos governantes e partidos políticos que, apesar de pertencerem a espectros políticos opostos, representam dois lados da mesma moeda.
Ou seja, governos pautados em narrativas e não em nossa história, que não contribuem para a construção política voltada ao bem comum e público. Pelo contrário, esses governos buscaram alinhar a máquina pública aos seus interesses, o que reduziu a capacidade e a qualidade da atuação pública e de seus agentes.
Nesse sentido, a superação desse impasse rumo ao pleito de 2026 demanda o resgate profundo dos elementos fundantes da nossa singularidade civilizatória e política. Minas Gerais que é. do ponto de vista histórico, reconhecida como o principal expoente vivo desse mosaico barroco, possui a vocação inata para a plasticidade institucional: a capacidade ímpar de unir o diferente e o diverso, o arcaico e o moderno, por meio de uma vontade política expressamente concebida e orientada para a coesão.
Neste contexto, existem novas lideranças conscientes da necessidade de construir uma frente democrática da mineiridade. Destaco entre elas: Gabriel Azevedo (MDB), Jarbas Soares Júnior (PSB) e Marília Campos (PT). Eles defendem a formação de uma frente democrática capaz de gerir e buscar a recuperação econômica, social e política do estado, iniciando-se por um acordo envolvendo a federação liderada pelo PT com PCdoB e PV, e os partidos PSB, PSDB e MDB.

Se souberem diferenciar conservadores de reacionários, a frente pode muito bem ser ampliada com a participação do PSD, PDT e do Republicanos, representados por seus dois candidatos de perfil outsider: Alexandre Kalil e Cleitinho. Na experiência do segundo, o acordo poderia buscar lastro histórico na frente democrática construída em 1966 por Carlos Lacerda e Juscelino Kubitschek.
Para alcançar esse objetivo, os novos atores políticos devem assumir o papel de intérpretes da nossa origem, mobilizando a multidão — não como uma massa informe sujeita a despotismos, lógicas irracionais ou populismos vazios, mas como uma força viva e plural que exibe livremente suas diferenças e sua potência criativa.
Obviamente que Lula, um candidato de centro político, possui possibilidades de fortalecer o projeto de Marília Campos. Ela deixou um legado na prefeitura de Contagem e sabe que, neste momento, nenhum quadro do seu partido pode vencer uma eleição para governador. Ao mesmo tempo, sua expertise municipal e metropolitana, aliada a uma capacidade de articulação, são ativos valiosos no Senado Federal e além.
Mas, para isso, será necessário convencer seus correligionários do equívoco da candidatura majoritária ao governo estadual, que, obviamente, carregará todos os traumas da gestão de 2015-2019. Além disso, o PT mineiro precisará não ser alienígena ao espírito da mineiridade, alinhando-se à tradição estadual que, outrora, conferiu aos políticos mineiros a roupagem das raposas na figuração de Maquiavel.
Marília, juntamente com Jarbas e Gabriel, coloca o bem público e comum em primeiro lugar. Essa postura faz deles lideranças capazes de fortalecer a esperança de uma Minas Gerais que retoma sua mineiridade republicana.
Ao alinhar a tradição da mineiridade com a urgência de um desenvolvimento material, essa frente enfrenta o desafio histórico de superar a inorganicidade atual e restaurar a res publica. Trata-se, em última instância, de rejeitar a antipolítica desprovida de conteúdos normativos e resgatar o sentido ético da ação pública.
Somente assim, as decisões políticas voltarão a incorporar ao mundo o bem comum e o interesse público, que atualmente lhe falta. Essa mudança transformará a crise conjuntural em um momento decisivo para afirmar a cidadania, a Constituição de 1988 e a modernidade, sem apagar nossa identidade.
Pacelli Lopes é professor e gestor da Teia de Saberes.
Imagem da Capa: Os Doze Profetas, de Aleijadinho, dispostos no adro do Santuário do Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas, MG.



