O medo nasce da impotência da mente, e a superstição é o meio pelo qual os homens são governados e divididos através dos seus afetos mais sombrios.
Spinoza
O título da recente película de Steven Spielberg não demora em promover associação com um dos eventos mais famosos da história, o desembarque aliado na Normandia, em 1944. E tal associação permanece, mesmo quando desenrolado por seu título original, Disclosure Day (Dia da Revelação). Assim, tanto naquele passado, quanto no enredo do atual filme, a despeito de temáticas diferentes, algo forte os une, na medida em que tratam sobre pontos de inflexão ocorridos sob um esforço até então nunca visto para derrotar obscurantismos (em 1944 contra o fascismo europeu; no cinema, contra arbitrariedades e segredos público-privados). Neste processo se destaca o poder dos afetos que formam opiniões e criam paixões que mobilizam indivíduos e massas em prol de causas que demandam mesmo risco de vida para sua revelação.
Com o típico maniqueísmo que envolve filmes de ação hollywoodiano, há o vilão Noah Scanlon (personagem de Colin Firth), chefe de grande corporação que atua junto à defesa governamental estadunidense para coleta e guarda de segredos de Estado. E por outro, a dupla de Margaret Fairchild e Daniel Kellner (interpretados por Emily Blunt e Josh O’Connor) que atuam para trazer à lume todas as provas da existência da antiga e recorrente presença alienígena no planeta. No desenvolvimento da história, a atuação de Noah segue como esperado do malfeitor que não mede moralidades para cumprir seu intento de manter o público livre do conhecimento extraterrestre. Tudo sob a alegação do quanto a descoberta afetaria valores da humanidade (como a fé), quando, em verdade, se trata de manutenção de riqueza e poder das elites. E, por outro lado, é curiosa a atuação de Fairchild e Kellner, em especial a primeira, que transita em meio às maiores tensões, devido a um tipo de poder desenvolvido de super empatia, que lhe permite saber tudo sobre as pessoas com quem se depara, inclusive e principalmente seus medos e preocupações, gerando nestas pessoas uma imobilização que passa ao telespectador a sensação de que Fairchild passa por seus opositores, simplesmente porque estes sentem e se imobilizam por aquilo que alguém foi capaz de fazer frente ao esperado de que todos fizessem: esta pessoa realmente me conhece, se importa e me ajuda. Não estou só, mesmo na multidão indiferente.
Os personagens de Blunt e Firth poderiam se equivaler a polos afetivos que, por sua vez, se relacionariam com um quadro de polarização política tóxica que assola o mundo atualmente, não à toa, servindo de inspiração para Spielberg nesta nova obra cinematográfica. Desta forma, temos a corporação Wardex com sua encarnação do conceito de elite corrupta, que enseja a suspeita permanente acerca das instituições tradicionais e de que, portanto, o sistema mente. Assim, o cidadão, outrora alinhado a desígnios corporativos e/ou estatais na crença de que tudo ficará bem, passa cada vez mais a se mobilizar pelo protagonismo de si mesmo, se afetando pela criação/replicação de teorias conspiratórias que alimentam extremismos individuais e coletivos.

Ao longo da narrativa sempre se vê o outro como aqueles a serem neutralizados em seus intentos, variando a forma em que isto é feito. Pelo vilão (riqueza corporativa e poder estatal) a inimização mais puramente coercitiva e assassina de seus divergentes (tudo valendo pelo bem maior, com a conveniência ignorância da reflexão sobre bom pra quem?). Por parte dos protagonistas, em luta contra um mundo à beira de um colapso político-existencial, é a promoção do fracasso de seus perseguidores pela mostra pública de um valor que se apresenta externo ao sentimento global (e, não por acaso, colocado narrativamente como alienígena), empatia.
Entre os tantos gêneros e narrativas da ficção científica que versam sobre viagens espaciais, contatos extraterrestres, viagens no tempo, tecnologias ultra avançadas; ao fim, tudo é sobre nós mesmos, hoje…ao menos, um hoje sob um dado olhar do momento e perspectiva do criador da obra. Se, por exemplo, a produção de Gene Rodenberry, Jornada nas Estrelas, era sobre a aposta de um futuro utópico de convivência, numa época de Guerra Fria em que a série foi produzida; Guerra dos Mundos (na versão do próprio Spielberg, de 2005) apresenta pano de fundo mais sombrio e trágico na interação entre diferentes raças, onde aliens malvados, seus raios e indiferença ao diálogo querem destruir seu outro, os humanos (seriam aqueles alienígenas patriotas!?). E entre estas duas obras, Dia D se mostra mais analítico quando promove este balanço sobre os fantasmas que rodeiam o imaginário político e coletivo atual. Apesar de nossos medos, suspeitas e paranoias, também somos advertidos sobre a possibilidade da esperança e da convivência (não limitado por um tipo de contragosto da simples tolerância). A mensagem final, se usada como ferramenta para nossa paz ou destruição, é o que caberia à própria humanidade decidir. A revelação de Spielberg, portanto, é a de um espelho incômodo que nos diz que o além para novas descobertas e resoluções de problemas, mais do que uma busca intergalática, é a persistência por um achado bem terreno.
Escutem…
Allan Freire é doutorando do PPGCP/UNIRIO.




1 Comentário
Interessante essa interpretação que coloca minha análise num espelho convexo ao seu.
Parabéns Allan.