O processo eleitoral de 2026 se aproxima. Isso recoloca no centro da agenda nacional o debate sobre os rumos do país e o papel do Congresso Nacional na formulação de respostas para os desafios brasileiros. Trata-se de um momento em que a política volta a ganhar relevo como espaço de decisão e mediação dos interesses da sociedade.
À medida que esse processo se dá, o debate público passa a expor com maior nitidez não apenas os desafios estruturais que atravessam o Brasil, mas também os limites da representação política tal como ela vem sendo exercida. Em um cenário marcado por desigualdades persistentes e dificuldades concretas no acesso a direitos básicos, a política volta a ser chamada a responder, de forma mais direta, às demandas da população.
É nesse contexto que se coloca a pré-candidatura de Ary Girota, nosso entrevistado, a deputado federal pelo PSB no Rio de Janeiro, partido de importância fundamental, inclusive histórica, na construção da democracia brasileira. Presidente do SINDAGUA-RJ, ele chega ao debate público a partir de uma trajetória construída na organização dos trabalhadores e na defesa concreta de direitos sociais.
Essa trajetória ajuda a explicar o lugar fundamental que a água e o saneamento ocupam em sua pré-candidatura. Para Ary, não se trata de um tema somente técnico ou distante da vida comum, mas sim de uma questão que atravessa o cotidiano das famílias, o desenvolvimento dos municípios, a saúde pública, o trabalho e a dignidade da população.
Confira a entrevista:
Sua pré-candidatura para a Câmara dos Deputados visa fazer a defesa de quais propostas?
Eu tenho um amplo conhecimento do Estado do Rio de Janeiro, que está passando por uma crise econômica por conta da dificuldade de renovação de lideranças políticas. Estou entrando nessa disputa amadurecido e ciente da importância da valorização do acesso à água como eixo da garantia da qualidade de vida. Assim, a revitalização econômica do Rio de Janeiro, tendo por base a CEDAE, empresa pública de infraestrutura em saneamento, que pode atuar nos 92 municípios do estado, nos permitiria agregar novos elementos, como o acesso à água para a agricultura no interior, o acesso à água para o trabalhador e às camadas populares. E não podemos esquecer os empresários e empreendedores que questionam os valores exorbitantes das contas desse serviço após as concessões do inelegível ex-governador. Sua associação a políticas públicas para o desenvolvimento sustentável, respeitando as vocações regionais, indica um movimento político de democratização e ampliação das conquistas ambientais, propondo uma legislação que viabilize à sociedade ter mais acesso a serviços públicos de qualidade. Ter saneamento público não significa instituir uma “taxa de fezes” em lugares onde, em momentos de chuvas, temos transtornos com perdas de vidas e de patrimônio.
Por que um sindicalista com grande destaque no mundo sindical contemporâneo deseja ser Deputado Federal?
Bem, é preciso esclarecer que esse “sindicalista” foi forjado na luta pela sobrevivência. Desde muito cedo atuando no chão de fábrica, o cotidiano, as agruras e as dificuldades da classe trabalhadora conduziram minha atuação na luta sindical e, por consequência, a busca de outros caminhos para melhor defender os interesses dos trabalhadores. Continuo a aprender com um olhar e um gesto de solidariedade. Esse perfil, em muito, vai melhorar a representação política em Brasília. Ser deputado federal representa a real possibilidade de potencializar a luta por meio da formulação de leis que preservem direitos consagrados e busquem a implantação de novos direitos, à luz das mudanças tecnológicas em curso. Em dois anos, a Constituição de 1988 completará 40 anos. Acredito que podemos ter a oportunidade de defender esse legado diante das ameaças que hoje se colocam na política brasileira.
Sua experiência como liderança sindical poderia, em muito, contribuir na atração de jovens sindicalistas para o debate político. Como você avalia essa possibilidade?
Nessa caminhada das lutas cotidianas, percebi que a juventude trabalhadora, em função das jornadas extenuantes e dos ataques sistemáticos à imagem dos sindicatos, não tinha conhecimento da representatividade dessas instituições ou, de pronto, já as demonizava. Assim, um hiato de comunicação entre esses atores se consolidou. Nossa principal tarefa tem sido arregimentar, entre os jovens trabalhadores, aqueles que tenham um mínimo de consciência de classe, para sua formação sindical e política. Então, respondendo objetivamente à questão: sim, é perfeitamente cabível essa ação. E aproveito para convocar aqueles jovens trabalhadores que estiverem lendo esta entrevista a acompanharem nossa campanha e nos seguirem nas redes sociais.

O Partido Socialista Brasileiro (PSB) no Rio de Janeiro, se não estamos enganados, nunca elegeu uma liderança sindical ao Parlamento desde 1985. Você avalia que esse é desafio fácil de superar?
Nada, absolutamente nada é fácil para a classe trabalhadora, muito menos para aqueles que dedicam seu tempo a cumprir esta árdua tarefa de representatividade sindical. Já estamos nessa caminhada há pelo menos 10 anos, e pude perceber que o reconhecimento pelo trabalho realizado, por vezes, nem acontece. Nessa perspectiva, conduzir uma liderança sindical ao Parlamento, por óbvio, não é tarefa fácil. No entanto, desafios foram feitos para serem enfrentados e, quando combinadas as estratégias e ações acertadas, podem ser superados. Estou no Partido Socialista Brasileiro pois percebi uma possibilidade de termos mais democratas articulados politicamente nesse movimento, que não é individual, mas uma proposta de renovação também da política em nosso Rio de Janeiro. Como sempre coloco: com Foco, Força e Fé!
O Novo Marco Legal do Saneamento (Lei 14.026/2020) estabelece a universalização dos serviços até 31 de dezembro de 2033, meta que prevê 99% da população brasileira com acesso à água potável e 90% com coleta e tratamento de esgoto. Há um movimento no Congresso para incluir o acesso à agua potável como um direito fundamental na Constituição. A principal resistência a essa proposta vem de parlamentares que argumentam que ela poderia ferir o Marco Legal do Saneamento. O senhor acredita que elevar esse direito à categoria constitucional é um reforço necessário às metas do Marco Legal do Saneamento ou, como argumentam alguns parlamentares, pode representar um entrave jurídico para o setor?
Eu não tenho dúvidas de que a garantia do acesso à água potável deva ser alçada a um direito fundamental de nossa Constituição. Logo, nossa proposta estará dialogando com aqueles que pensam em um futuro, uma vez que o tema da água está muito vinculado ao debate do aquecimento global. A inclusão dessa alteração, ao contrário do que alguns “parlamentares” alegam, representaria, sim, o meio pelo qual o setor privado pudesse, com tranquilidade, continuar com seus projetos de viés lucrativo, enquanto a garantia constitucional de acesso à água seria de responsabilidade do Estado brasileiro. É necessária uma responsabilidade com o “bem viver”, principalmente agora, que é um momento em que estamos a clamar por possibilidades em que uma campanha política programática anime os jovens, preocupados com o amanhã, as mulheres, que geram vidas, além de outros segmentos de nossa demografia, que é muito variada. Quero que me procurem para demonstrar o quanto não estamos aqui só repetindo “chavões”.
A PEC 3/2022, conhecida como “PEC das Praias”, propõe transferência de terrenos de marinha da União para estados, municípios e ocupantes particulares. Como o senhor se posiciona em relação aos possíveis impactos dessa medida no acesso público às praias do litoral fluminense?
Sou terminantemente contrário e, quando devidamente empossado como deputado federal, trabalharei para que seja arquivada em definitivo. Existem questões que são prerrogativas da União, visto que a possibilidade de transferência da titularidade dessas áreas poderia ensejar um fenômeno parecido com o que já acontece nos territórios em nosso estado e em nossos municípios: a invasão e a ocupação por meio da “grilagem de terras”, realizadas por grupos criminosos, que, obviamente, impactariam negativamente o acesso a esses territórios. Essa pergunta ainda nos permite acrescentar que nossa candidatura estará ciente da observação de uma conjuntura nacional em que temos que, com muita prudência, explicar para a sociedade os motivos que nos diferenciam de um grupo político motivado a rasgar a Constituição de 1988. Meu nome será um dos “tijolos vermelhos” nesse muro de resistência a esses oportunistas aliados aos mais poderosos.
O Novo Plano Nacional de Educação (Lei 15.388/2026) eleva a meta de matrículas em tempo integral para 35% dos estudantes da rede pública até 2029. Considerando que o Rio de Janeiro possui realidades escolares muito distintas entre a capital e o interior, como senhor pretende atuar, no âmbito federal, para garantir que as prefeituras tenham condições técnicas e financeiras de cumprir essa meta? O senhor é favorável à criação de incentivos específicos para a implementação da educação integral em regiões de maior vulnerabilidade?
A atuação deve ser pautada usando como inspiração a máxima “Tratar os iguais como iguais e os desiguais como desiguais, na medida de suas desigualdades”. E faço essa colocação com a convicção de quem tem passagem pelo segmento da educação. Minha formação é na área da Pedagogia e, por questões objetivas de sobrevivência, acabei por migrar para o setor de saneamento. Assim, defendo concretamente investimentos massivos na educação pública integral e na capacitação dos profissionais que atuam em todo o ciclo de formação, desde, e principalmente, as classes iniciais até as mais elevadas. A busca por políticas de incentivo e custeio desses investimentos também será objeto de nosso futuro mandato, cientes dos limites orçamentários. Tenham certeza de que estarei de mãos dadas com os usuários da educação e seus profissionais, por quem tenho muito respeito.



