Livro resenhado: Hecker, F. Alexandre. História do socialismo democrático brasileiro: o Rio de janeiro como centro produtor e difusor. São Paulo: Annablume, 2024. 394 p.
O livro de F. Alexandre Hecker é, hoje, o principal trabalho de história sobre o Partido Socialista Brasileiro (PSB). É o mais recente resultado de anos de pesquisa e estudos de textos e documentos que cobrem períodos da história brasileira. Nos períodos analisados por Alexandre Hecker, estamos sob a perspectiva do confronto pela democracia e da luta pela sua consolidação, em face das dificuldades vividas por um partido peculiar, dentro dos sistemas partidários, nos intervalos do segundo pós-guerra, de 1945-1946 a 1964, e, posteriormente, de 1985-1988 até os dias correntes. Período este em que o PSB se destaca pela atuação do Vice-Presidente da República, que também acumulou o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, diante da complexa conjuntura aberta pela Ordem Executiva 14257 do Presidente dos Estados Unidos (POTUS), bem como da Operação Fúria Épica, de 28 de fevereiro de 2026, no Irã.
Alexandre Hecker dedica amplo espaço ao Rio de Janeiro (Distrito Federal), na transição que vai da renúncia de Getúlio Vargas (1882-1954) em outubro de 1945 ao regime constitucional de setembro de 1946. Importa reter que o Distrito Federal e sua população conviviam com os principais aparelhos do regime constitucional outorgado em novembro de 1937. Nesse Distrito Federal complexo, povoado por um sistema partidário frágil, emergiu pela segunda vez o PSB (a história desse partido no intervalo de 1932 a 1937 ainda está por se fazer) que se apresentou como socialista e democrático, para não se confundir com as outras visões que mal compreendiam o profundo e indissociável vínculo dos ideais democráticos e socialistas. Apesar de sua longeva história entre nós, como acentua Marco Aurélio Nogueira, Professor Titular de Teoria Política da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP) na primeira orelha do livro, a persistente presença do ideal do socialismo democrático é um motivador a ser analisado no curso dessa trajetória de outrora e de agora. Pois, foi esse objeto que F. Alexandre Hecker decidiu revisitar, fundado em décadas de pesquisa. Por essa razão e originalidade que sua história do socialismo democrático brasileiro já está a prestar um serviço decisivo nesse ¼ do século 21. Mas Alexandre Hecker ousou ir além, voltando a situar a cidade do Rio de Janeiro (não mais Distrito Federal há no mínimo 20 anos) como capital cultural do país e espaço difusor e propulsor de inúmeras propostas, como o festival musical internacional “Rock in Rio”, bem como também o será a da refundação do PSB há 40 anos, como alude Bernardo Ricupero, Professor Livre-Docente em Ciência Política da Universidade de São Paulo (USP) na segunda orelha do livro.
No livro são desvendadas ainda as relações do renascente PSB no interior do novo sistema partidário, tanto no país, quanto no âmbito carioca, em meio às complexas conjunturas nacionais decorrentes da eleição presidencial indireta brasileira de 1985, por meio de um colégio eleitoral, sob a égide da Constituição de 1967. Incluíam-se, igualmente, a luta pelas condições de vida das classes trabalhadoras, o resultado favorável à resistência à ditadura de 1964, e seu prolongamento na caminhada da consolidação democrática, depois da constituição de outubro de 1988.

Não importa que nem sempre o PSB tenha sido vitorioso eleitoralmente, como bem demonstra Paulo Sérgio Pinheiro, Professor Titular de Ciência Política da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, na contracapa do livro. O que conta, sobretudo, é a sua extraordinária resiliência nos sistemas partidários e nos sistemas políticos. Todos esses temas compõem o traçado proposto por Alexandre Hecker, tornando-se referência fundamental da extraordinária jornada até aqui do socialismo democrático no Brasil.
Daí que a posição do PSB em relação às transições à democracia nesses diversos cenários e com suas próprias peculiaridades, sendo uma do segundo pós-guerra de 1945-1946 e a outra em 1985-1988, ilustram o seu caminho dialógico.
Vale mencionar que, para o prefaciador do livro Jorge Ferreira, Professor Titular Aposentado do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal Fluminense (UFF), Alexandre Hecker inova ao analisar o PSB após 1985, discutindo o quanto o partido mudou e o quanto manteve do seu passado. Em 1990, Miguel Arraes (1916-2005) filia-se, e, em 1993, assumiu a direção do PSB. O partido não era mais tão somente o que fora e buscava assumir um perfil popular. O sucessor de Arraes no PSB em 2005 foi seu neto, o político Eduardo Campos (1965-2014). Mas o trágico acidente aéreo ceifou sua vida no mesmo dia do falecimento do seu avô.
Aqui o livro encontra seu termo e nos deixa algumas boas inquietações. Uma delas é: por onde anda a alma do socialismo democrático brasileiro?
É interessante refletir sobre isso que, na hora da escalada da estratégia de tensão à democracia, iniciada na campanha eleitoral presidencial de 2018 e depois com o seu resultado e o governo que dele adveio de nítidas raízes fascistas, implicou num novíssimo antifascismo onde o PSB teve e tem um papel decisivo.
A dinâmica socioeconômica favoreceu a formação de uma grande aliança para a campanha eleitoral presidencial de 2022, que se sagrou vitoriosa e derrotou a recandidatura fascista por cálculos que se demonstraram acertados.
É disso que este livro trata, no fundo, de uma reflexão sobre as possibilidades do PSB e do socialismo democrático e suas atuações no jogo político nacional, sobre os seus enfrentamentos na defesa da nossa democracia, suas limitações, suas fragilidades, e sobre seus passos nas diferentes conjunturas, inclusive na atual campanha eleitoral de 2026.
E é com essa trajetória que a alma do socialismo democrático brasileiro segue sua jornada entre nós. Alexandre Hecker tem plena consciência dela e das dificuldades percorridas nessa caminhada. Não resta dúvidas de que seu belíssimo esforço historiográfico nos ajuda a pensar em novas formas de agir.
21 de abril de 2026
Ricardo Marinho é professor da Teia de Saberes, da Unyleya Educacional e da UniverCEDAE.
Imagem da capa: Miguel Arraes e Ulysses Guimarães.



