Até quando, Catilina, abusarás de nossa paciência?
A célebre indagação do político romano Cícero, que epigrafa esta publicação, resume o espírito de um debate público que abandonou a busca pelo consenso e passou a gravitar em torno de ameaças existenciais reais ou retóricas. Quando analisamos o Brasil dos últimos anos, a estrutura discursiva e os mecanismos políticos das Catilinárias emergem com impressionante atualidade.
A partir de discursos do Cônsul romano em 63 a.E.C., naquele contexto se trata de denúncias sobre Catilina, herdeiro de família nobre de Roma que planejava derrubar a República com intuito de obter riquezas e poder. Assim, a despeito das peculiaridades de cada momento, o fato em questão evidencia reminiscências históricas, como a que remete personagens na busca de engrandecimento em detrimento da estabilidade política.
Um país saído de duas décadas de regime ditatorial civil-militar, sem julgamento de seus perpetradores durante a redemocratização, sempre deixou à espreita a possibilidade de um retorno daqueles algozes da democracia. No entanto, o passar dos anos moldou um falso sentimento de acomodação em um tipo de elas por elas, em que sociopatas não foram julgados e perseguições políticas cessaram. O suscitar de nostalgias pelo regime de exceção como opinião pública foi relegada a devaneios… até os anos 10 do novo século.
Não sendo o Brasil caso endêmico, antes daqui já se viam autoritarismos dominando grandes players internacionais, como um Putin de vários anos à frente da Rússia e Donald Trump alcançando a presidência estadunidense. Esta eleição, choque para muitos e para a história, mostrou uma das maiores dissonâncias discursivas e políticas de todos os tempos quando, por exemplo, relembramos que, em mensagem internacional aos que acompanhavam a eleição presidencial de 2016, afirmou: Vamos tratar a todos com justiça. Todos os povos e todas as nações. Buscaremos terreno comum e não hostilidade; associação e não conflito.¹
O iniciado em 2013 com as Jornadas de Junho, passando pelo questionamento da lisura eleitoral do pleito de 2014 por Aécio Neves frente à derrota para Dilma Rousseff, até a eleição de Bolsonaro como elemento notório de uma direita nostálgica dos anos de chumbo, pode apresentar um processo de corrosão democrática. Uma evolução se evidenciou em termos de crescente polarização política afetiva e tóxica. Desta forma, se outrora um antagonismo se evidenciasse (sobretudo nos segundos turnos entre apenas dois candidatos para chefias do executivo) como oportunidade para análises e/ou mesmo debates mais acalorados sobre o melhor candidato, acabou por se tornar um contexto de inimização. Se outrora pudesse haver um entendimento coletivo tácito quanto a mínimos civilizatórios que demarcavam um máximo que uma discordância pudesse gerar, acabou ter suas bordas mais alargadas ao ponto de agressões físicas, verbais e psicológicas contra o oposto ou simplesmente diferente dos discursos ultranacionalistas, armamentistas e conservadores.
Assim como em Roma, onde Cícero argumentava que a permanência de Catilina na cidade contaminava o corpo político, o cenário brasileiro atual ainda sinaliza a plausibilidade de representantes que atuem pelo banimento simbólico do rival. De tal maneira, a despeito de atrocidades cometidas no quadriênio de 2019 a 2022, que se encerraram eleitoralmente com a volta de um perfil progressista na pessoa de Lula, a democracia nunca é um quadro terminado. Pelo contrário, trata-se de um constante embate entre forças democráticas e desdemocratizantes que se valem das instituições atuais para infiltrá-las com elementos tóxicos. Isto demanda redobrado foco para, apesar dos afetos que a todos toma, não se prescindir da clareza e razão para compreender e denunciar flertantes do autoritarismo. Ou, em palavras do sociólogo da democracia Charles Tilly: é preciso uma minuciosa análise voltada para o processo de democratização e da desdemocratização para que se possa obter respostas coerentes.²

Com gestos crescentes de ataques às instituições brasileiras, que atingiram seu ápice com greve de caminhoneiros em 2022 e no vandalismo à sede dos Três Poderes em Brasília no ano seguinte, Bolsonaro escancarou seus intentos golpistas. Um novo episódio de exceção se somaria a outros capítulos, em uma recorrência na história política brasileira desde a fundação da república. Mas o golpe fracassado e julgamento posterior parecia dar tratamento cicatrizante que 1988 não fez. No entanto, a proximidade do pleito presidencial em 2026 com diversos expoentes da direita elitista-empresarial com intenções de votos relevantes para não serem subestimados, deixam atentos os coordenadores de campanha para uma nova gestão lulista. Entre os nomes de peso ao atual governo se consolidou o de Flávio Bolsonaro, que para além do notório discurso de direita, pesa o fato de ser nepobaby político do Jair. De tal maneira, se associou a ideia de que ver Flávio na presidência seria ter o Messias de volta.
Mesmo com pesquisa de intenções de voto que, a despeito de há pouco demonstrar empate técnico entre Lula e Flávio, agora apresentam abertura maior de margem favorável ao petista³, se percebe que mesmo casos de escândalo por financiamento irregular a filme biográfico do pai, não jogou de todo o filho de Bolsonaro na lona. E mesmo em análises que consideram outros do círculo íntimo do patriarca como pleiteantes à presidência, o índice dos mais de 40% de intenção permanecem⁴. A direita golpista cambaleia, mas se mantém com seus correligionários em relevância.
Em meio a um quadro de polarização que persiste, iniciativas que atuem na contracorrente se mostram como boas práticas políticas e civilizatórias, no sentido de promover a reflexão um olhar para além dos valores. A despeito do que cultural e moralmente move um candidato, é importante não se deixar nublar o que dado personagem e/ou partido tem a apresentar para o pragmático e efetivo bem estar cidadão (segurança, saúde, educação, economia, mobilidade, etc.). Sobre isto, ganha realce o projeto de extensão acadêmica da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), Con(s)Ciência Política, sob a coordenação das docentes Marcia Ribeiro Dias e Viviane Gonçalves Freitas.
A respeito do projeto, diz professora Marcia:
A ideia do projeto Con(s)Ciência Política surgiu em uma disciplina optativa do curso de graduação em Ciência Política da Unirio, cujo tema central eram os estudos sobre a sofisticação política. O conceito de sofisticação política diz respeito à capacidade de assimilar, organizar e avaliar informações políticas de forma crítica. A sofisticação política reflete o nível de interesse, conhecimento sobre o funcionamento do sistema político, e a capacidade das pessoas de conectar ideias abstratas a fim de reconhecer o próprio interesse e fazer escolhas pertinentes. No contexto dos estudos sobre sofisticação política, destaca-se o conceito de “voto correto”. O “voto correto” seria aquele a realizado sob condições de informação plena, onde o eleitor conhece todas as alternativas existentes, reconhece o próprio interesse e é capaz de votar naquele que mais o representa. Entendendo que as campanhas eleitorais mais se ocupam da integridade moral das candidaturas do que de suas propostas governamentais, surgiu a ideia de elaborar um projeto de extensão universitária a fim de envolver os estudantes na sistematização e divulgação das referidas propostas. O objetivo geral é reduzir os custos informacionais do cidadão comum, tornando o conhecimento político acessível e atrativo, a fim de viabilizar a expansão do “voto correto” no país.
E acrescenta professora Viviane:
A iniciativa do projeto Con(s)Ciência Política, como uma oportunidade de ter o aperfeiçoamento do que se ensina durante o curso de Ciência Política para o corpo discente, já é em si muito importante. Ao acrescentar à proposta o caráter extensionista como balizador de todo o trabalho, não só é um acréscimo fundamental à formação universitária, como também insere na dinâmica ensino-aprendizagem a relação social do fazer acadêmico. A indissociabilidade ensino-pesquisa-extensão, normativa fundante do caráter de cidadania das universidades brasileiras, expressa na Constituição Federal de 1988, guia as atividades dessa primeira experiência da curricularização da extensão no curso de graduação em Ciência Política da UNIRIO. A extensão universitária é um processo de mão-dupla, no qual sociedade e academia compartilham saberes, na perspectiva e na ação, em prol de uma organização comunitária mais justa, democrática e cidadã.
Tal iniciativa, sem a pretensão de ser a vacina contra a polarização afetiva e tóxica que permeia a política nacional, entretanto é a ação louvável e necessária para, no alcance que conseguir, firmar princípios que parecem se perder em meio às turbulências na história: reflexão e civilidade.
De forma nenhuma se perde do horizonte a consciência pelo fato de que a luta pela democracia nunca finda. Contudo, são sempre bem recebidos momentos de alívio vigilante opostos ao tensionamento contemporâneo no Brasil e no mundo. E para tanto, projetos como o da Unirio visam afastar novas catilinárias em uma sensatez que não fomenta a homogeneização de um espectro ou outro da política, mas sim a máxima apócrifa (erroneamente atribuída à Frida Kahlo):
Não quero que pense como eu, só quero que pense.
¹ – AGENCE FRANCE-PRESS. Donald Trump surpreende e é eleito presidente dos Estados Unidos. Disponível em: <https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/afp/2016/11/09/donald-trump-surpreende-e-e-eleito-presidente-dos-estados-unidos.htm>. Acesso em: 23 maio 2026.
² – TILLY, Charles. Democracia. Petrópolis: Vozes, 2013. P.64.
³ – CARTA CAPITAL. As intenções de voto de Lula e Flávio Bolsonaro no 2o turno em novo Datafolha. Disponível em: <https://www.cartacapital.com.br/politica/as-intencoes-de-voto-de-lula-e-flavio-bolsonaro-no-2o-turno-em-novo-datafolha-3/>. Acesso em: 23 maio 2026.
⁴ – SATIE, Anna. O desempenho de Michelle Bolsonaro contra Lula, segundo o novo Datafolha. Disponível em: <https://veja.abril.com.br/brasil/o-desempenho-de-michelle-bolsonaro-contra-lula-segundo-o-novo-datafolha/>. Acesso em: 23 maio 2026.
Allan Freire é doutorando do PPGCP/UNIRIO.



