Que emoção no coração! Por Pablo Spinelli

Dedicado aos 50 anos de Liberalismo e Sindicato no Brasil, obra de fibra do flamenguista Luiz Werneck Vianna

 

Filme resenhado: Zico, o samurai de Quintino. 2025Direção: João WainerRoteiro: Thiago Iacocca 

 

É com uma raridade cada vez mais constante que vemos raios luminosos em dias cinzentos, no cinema atual, com o mesmo brilho e leveza como foram os 103 minutos da exibição de Zico, o samurai de Quintino. 

Uma biografia jamais pode ser considerada uma fonte verdadeira. E muito do que é retratado do perfil do biografado tem maior consonância com o biógrafo ou com o momento conjuntural do que com o perfil a ser exposto. Em um país que se diz do futebol – tal como a Argentina, Itália, Inglaterra, dentre outros – é de difícil compreensão que tão poucos filmes se debrucem sobre o universo futebolístico. Após clássicos sobre Garrincha, Alegria do povo (1962) e sobre Pelé: o nascimento de uma lenda (2017), cremos que o filme completa uma venturosa trilogia daqueles jogadores que transcenderam o espírito clubista e o ranço dos adversários.  

O filme tem uma boa montagem do passado em diálogo com o presente e o retorno ao passado com mais perguntas e outras respostas, um percurso que um historiador como Marc Bloch aprovaria. De caráter polifônico, o seu discurso pode parecer, à primeira vista, uma elegia ao jogador nascido no “rururbano” bairro de Quintino, com imagens de um subúrbio que se perdeu, com jogos de bola na rua, crianças descalças, amizades e casamentos entre vizinhos – daí a longeva união entre Arthur Nunes Coimbra e sua esposa Sandra -, mas aos poucos revela algo para além da deferência e da acomodação de praxe no mundo documental. 

Para um olhar mais atento, a direção de João Wainer e o roteiro de João Iacocca revelam camadas que mostram as conexões de futebol e política. É através do depoimento de seus irmãos que o Zico maduro e o os espectadores mais jovens recebem a informação que as carreiras de seus irmãos foram ceifadas mais cedo pela ação deliberada da Ditadura Militar brasileira, como é o caso de Antunes (ex-América e Ceará), que sofreu perseguição no Brasil por ter trabalhado como funcionário público para o Programa Nacional de Alfabetização (PNA), criado pelo educador Paulo Freire. Chegou a lecionar durante um mês, mas o programa foi interrompido após o Golpe Militar, em abril de 1964. Todos que fizeram parte do PNA foram considerados subversivos e Antunes teve a carreira interrompida no Portugal salazarista e foi preso no Brasil

O abandono da carreira em prol dos irmãos mais novos é um relato de força e de altruísmo de Antunes. Algo similar ocorreu com Edu, ídolo do América – preterido em convocações na seleção canarinho – e com o próprio juvenil Zico, que foi cortado da Olimpíada de Munique (1972) após ter sido o destaque do pré-olímpico. O jovem Zico ia pendurar as chuteiras por esse episódio e, como descobriu depois de 40 anos, não foi por motivos técnicos, mas políticos ligados à sua família. 

A virada da carreira de Zico se dá a partir de 1974 – coincidentemente, o ano da vitória política sobre a Ditadura¹. As vitórias no Carioca – quando os estaduais eram mais importantes que os esculhambados nacionais e internacionais – o Brasileiro e a Libertadores  são cenas obrigatórias para o deleite de qualquer amante do futebol. Em paralelo, as falas acerca das manipulações das ditaduras sul-americanas, especificamente a argentina e chilena – são fundamentais para a Cultura Política dos mais jovens.  Porém, talvez o ponto mais alto do filme foi o olhar e o espaço para o artilheiro do Brasileiro, o saudoso Roberto Dinamite, ídolo do Vasco. Em tempos de polarização afetiva, nada como o futebol, uma paixão, para desmontar a retórica manipuladora do ódio. 

Os críticos de cinema questionam a falta de autocrítica ou de enfoque menos parcimonioso, seja ao Zico ou ao Arthur. A cena do então ex-jogador Zico cumprimentando Collor e sendo empossado como Secretário dos Esportes, em 1990, não basta? E no ano seguinte, o já ex-secretário Zico se juntou à equipe Sumitomo Metals, quando era um time operário, e ajudando na profissionalização para o início da J-League, em 1993, não seria um autoexílio após ter apoiado o malfadado projeto neoliberal? 

A fala protagonista de mulheres, especialmente de Sandra Coimbra; os traumas nos filhos com a ausência da figura dos pais; o fatídico jogo contra a Itália de 1982 e o pênalti perdido no tempo normal em 1986; o recomeço sem estrutura no Japão e uma autodisciplina férrea mostram mais do que o ídolo, mostram um ser humano.

Em ano de Copa, é um dever cívico para qualquer brasileiro levar os jovens para assistir esse filme, que é antes de tudo uma reconstituição de um país que se perdeu – laços familiares e comunais de bairro, amizade para além da rivalidade, o foco no gol maior do que no drible inconsistente, a resiliência suburbana carioca. Em época de idolatria infanto-juvenil a um jogador imaginário que não existe mais, que tem atitudes cafajestes dentro e fora de campo, Zico, o samurai de Quintino, pode ser um auxílio na criação de anticorpos ao individualismo, ganância e soberba.

 

¹ – Refere-se à vitória eleitoral do MDB, de oposição. Os emedebistas elegeram 16 senadores entre as 22 vagas em jogo. O MDB obteve ainda 335 dos 787 deputados estaduais e 160 dos 364 deputados federais, aumentando significativamente suas bancadas nas assembleias, na Câmara e no Senado Federal. Fonte: Agência Senado. Uma outra referência é o texto 1974 – O ano da herança que não renunciamos, publicado no Voto Positivo em 2024. Disponível no antigo endereço do blog: https://votopositivo-cg.blogspot.com/2024/07/boletim-brasilia-conection-bbc-051-1974.html.

 

Pablo Spinelli é Doutorando em Ciência Política (UNIRIO), Mestre em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade (UFRRJ) e professor de História na educação básica.

 

Imagem da Capa: Jogo entre Vasco da Gama e Deportivo La Coluña (hoje Deportivo La Coruña), em 1993. Nela estão Zico (á esquerda), Bebeto (que viria a ser campeão do mundo em 1994, hoje Deputado Estadual pelo PSD-RJ) e Roberto Dinamite (à direita).

 

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