O Filme da Revelação, por Vagner Gomes.

“O interesse, como instância isolada – como já fora percebido nas lições clássicas do radicalismo filosófico inglês, em Hegel, Tocqueville, para não falar de Marx -, conduzia ao particularismo na forma do Estado, e, nas condições retardatárias da sociedade brasileira, onde predominava o estatuto da dependência pessoal, tendia a se combinar com as formas de mando oligárquicas e a sociabilidade de tipo hierárquico que prevaleciam no país. O primado do interesse, na Primeira República, assim, não se confronta com as formas de dominação tradicionais, antes as subordina, convertendo o atraso, tal como na exemplar demonstração de Victor Nunes Leal em seus estudos sobre o coronelismo, em uma vantagem para o moderno que estaria representado pela economia dominante em São Paulo, sob a direção de um patriciado com origem na propriedade fundiária e orientado por valores de mercado – a Prússia paulista será uma invenção da Primeira República.”

(Luiz Werneck Vianna, “Weber e a interpretação do Brasil”, 1999)

 

Um filme grandioso, como se os céus se abrirem aos sons das trombetas. Os jovens talvez desconheçam a importância da música num cinema, uma vez que deveriam estar com os ouvidos aprimorados para escutar. Em “O Dia D”, Steven Spielberg volta ao universo da ficção científica com sua parceria consagrada com o compositor John Williams. Ambos iniciaram esse diálogo artístico desde “Louca Escapada” (1974) em tempos do último ano do Presidente Nixon, que renunciou por causa do escândalo chamado como Caso Watergate (caso de espionagem de um Presidente da República de seus adversários políticos). Sintomaticamente, o citado político republicano, que ganhou notoriedade nos anos 70 norte-americanos pela valorização dos valores familiares desse mesmo país, aparece enquadrado numa das cenas do filme de 2026. Portanto, ouvir a trilha do filme é uma oportunidade de fazer conexões com filmes e momentos políticos globalizados desde a crise do Petróleo (1973).

“O Dia D” é uma lição de leitura de um Weber desconhecido até pelos consultores de campanhas eleitorais, que ensina o momento ideal para o tempo em política, como sempre o faz o personagem Hugo. Um filme em que o tema da ética da convicção e da ética da responsabilidade comparece numa perspectiva que poderia permitir uma polarização de linhas políticas, mas a clivagem da “guerra de movimento” na primeira parte do filme vai se deixando ceder para a reflexão que motiva uma “guerra de posição” até ao clímax final do filme. Consequentemente,

“Esse tipo de homem político ‘por vocação’, no sentido próprio do termo, não constitui de maneira alguma, em país algum, a única figura determinante do empreendimento político e da luta pelo poder. O fator decisivo reside, antes, na natureza dos meios de que dispõem os homens políticos. De que modo conseguem as forças políticas dominantes afirmar sua autoridade? Essa indagação diz respeito a todos os tipos de dominação e vale, consequentemente, para todas as formas de dominação política, seja tradicionalista, legalista ou carismática.” (Max Weber, Ciência e Política: duas vocações. p. 59)

Nessa movimentação de ritmo, Spielberg faz muito bem o uso de “Listen”, “Memory”, “Negotiation”, “Empaty” entre outras composições instrumentais de Williams. A trilha musical abre o caminho para que cheguemos a “Casa” (“Home”) que outro personagem de Spielberg certa vez clamou por ter direito de voltar. Todavia, assim foi sua cinebiografia de 1974 até 1982. Os títulos demonstram a dimensão de um grande material de referências no filme que agora está presente nos cinemas. Vejamos: “Tubarão” (1975), “Contatos Imediatos do Terceiro Grau” (1977), “1941 – Uma Guerra Muito Louca” (1979), “Indiana Jones e Os Caçadores da Arca Perdida” (1981) e “E.T.: O Extraterrestre” (1982). Assim, ampliamos em muito as possibilidades interpretativas do filme que não se restringe ao mundo da ficção científica ou ao suspense ou a ação, porém faz parte de um programa em apelo a moderação dos seres humanos para que possam parar e ouvir determinadas opiniões/revelações.

O filme se inscreve numa cultura política liberal democrática estadunidense com uma grande conexão com um ponto importante sobre o papel do intelectual diante de um tema de interesse público. Muito presente em personagens do diretor que muito questiona a sociedade da ganância e do espetáculo. Além disso, o fator religioso comparece na obra com a presença de uma “noviça rebelde” de outra linhagem além de um personagem com o nome de um patriarca do livro de Gênesis. Portanto, A ética protestante e o espírito do capitalismo é outra referência weberiana nesse filme em que o público juvenil deve ver no compromisso com a leitura de uma realidade para não se deixar iludir por falsas profecias e análise de uma dificuldade de diálogo com os evangélicos na política. Afinal,

“(…)os camaradas artesãos católicos mostram uma tendência mais acentuada a permanecer no artesanato, tornando-se portanto mestres artesãos com freqüência relativamente maior, ao passo que os protestantes afluem em medida relativamente maior para as fábricas para aí ocupar os escalões superiores do operariado qualificado e dos postos administrativos. Nesses casos, a relação de causalidade repousa sem dúvida no fato de que a peculiaridade espiritual inculcada pela educação, e aqui vale dizer, a direção conferida à educação pela atmosfera religiosa da região de origem e da casa paterna, determinou a escolha da profissão e o subseqüente destino profissional.” (Max Weber, A ética protestante e o espírito do capitalismo, pp. 32-33)

Afirmemos que essa resistência weberiana no filme nos convoque para que observemos que as forças da autocracia estão empurrando a existência da humanidade para um momento decisivo. Essa é uma convocação no qual é decisivo que se “Escute”, mas a primeiramente “Veja” no filme aquilo que deve motivar as novas gerações a ler e agir. Saibamos o momento de destruir os celulares.

 

Vagner Gomes é doutorando do PPGCP/UNIRIO.

 

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