Um pouco de autocrítica não faz mal a ninguém, por Pablo Spinelli

Escrito no calor da hora, pode-se errar na análise quanto ao tom, mas urge uma reflexão para que se possa relacionar ciência com política. Parafraseando uma famosa frase da escrita do escritor Mario Vargas Llosa, “quando esse governo se deu mal?”

A começar pela subida da rampa quando a simbologia daqueles personagens – que não se sabe se subiram novamente – já dificultava o entendimento do que foi prometido: um governo de pacificação e união nacional e a governabilidade com a Frente Democrática. Nem um gesto para a construção do “ministério do amor” e do “vamos namorar”, palavras ditas em tom de gracejo do então candidato Lula. Como os jovens poderiam namorar com dívidas? Sem ir ao cinema, tomar um sorvete, nada. As políticas de entrega de dinheiro à sociedade já foram internalizadas como direitos ou como uma prática de compra do voto, das mentes e dos corações que seriam respondidas pela traição na urna. A péssima política educacional ficou resumida ao “pé-de-meia”, uma política tão neoliberal quanto os vouchers de Paulo Guedes. Há de ser feita uma pesquisa para os “pés-de-meia” quanto aos seus votos.

Foi perceptível a ausência de uma educação política quanto aos efeitos das mudanças climáticas, das guerras externas e do capitalismo rentista nos preços das mercadorias, além da ausência de sinceridade sobre o fato de que os valores não voltariam jamais aos níveis pré-pandemia, mas que seriam menores do que na época das filas que queriam matar a fome roendo osso. Não, o que se optou foi pelo revanchismo, pela punição aos que tramaram e participaram da tentativa de golpe. E com isso foi-se mais de um ano de governo. Para os conservadores que não foram para o 8 de janeiro se permitiu a leitura: “poderia ser eu”!

Em 4 anos não se assistiu a uma reunião com oficiais das polícias militares nem uma reunião com as forças de segurança acerca de um debate sobre a segurança pública para cumprir a ideia de um “Brasil para todos”. Da mesma forma, os pastores escolhidos eram os de igrejas evangélicas inexpressivas quanto ao número de fiéis ou capilaridade. Caso as BETs tivessem sido discutidas de forma séria com as lideranças religiosas, seria uma forma de “dialogar com os evangélicos”, um programa que sempre serviu para um futuro que nunca chegou.

As Universidades, com uma grande maioria de pesquisa, debate e intervenção alheios às demandas societais, quando não grandes tribunais inquisitoriais do senso comum, formam grupos de interesse corporativo e que, não raro, se locupletam de bolsas de estudos com trabalho no mundo privado para os interesses particulares ou para renovação de militâncias que em boa parte almejam cargos comissionados e chefias de gabinete. E parte daí a jaula de ferro identitária, que não se resume a apontar para o brasileiro para chamá-lo de racista, patriarcal, homofóbico e ignorante religioso, como também a jogar na lata de lixo da história o pensamento social brasileiro. Esse nó górdio precisa ser resolvido, pois a pauta das identidades não é alheia ao campo da extrema-direita desde a Marcha Sobre Roma de Mussolini. Qual a diferença entre a Deputada Índia Armelau (PL-RJ) e Erika Hilton (PSOL-SP)?

As eleições que se findam hoje mostram que o ciclo da Nova República se esgotou. Uma geração foi rejeitada pelas urnas independente da qualidade ou história, de maneira similar como a que Geraldo Alckmin seria deixado para trás na tentativa de reeleição. Enquanto isso,  a octogenária (sem etarismo) liderança maior daquele que poderia ter sido o governo da Frente Democrática fala olhando para o retrovisor como um avô fala ao neto das conquistas de seu passado.

O tema da violência contra a mulher e dos preços das gôndolas, por exemplo, foi encapsulado de forma cínica, mas com sucesso, pelo seu adversário. As réguas moralistas do velho udenismo: corrupção, ladrão, miliciano, etc, não foram válidas pelos eleitores por conta da desconfiança quanto às instituições e pelo sentimento antissistêmico como dos idos de 2013, o ano que não terminou. Se todos são ladrões e corruptos, pode-se escolher o de estimação.

Nem o PT e nem Lula tiveram um histórico de autocrítica nessas quatro décadas. O momento é de ter tranquilidade e saber falar para sobre futuro para os que tem menos de 50 anos. Falar de ciência, tecnologia e universidade não se coaduna com as demandas dos subalternos: transparência, diálogo sem os cacoetes de vanguardismo iluminado, o pão de cada dia, transporte mais barato e chegar mais rapidamente em casa, a segurança pública, a capacitação individual para o empreendedorismo – o que fez esse Ministério em 4 anos? Agora é falar e fazer uma proposta de Frente Democrática, renovar os quadros, abrir mão da hegemonia de tudo e priorizar o país, a república e a democracia diante do dragão da maldade cuja língua de fogo já chamuscou a todos e todas.

 

Pablo Spinelli é Doutorando em Ciência Política (UNIRIO), Mestre em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade (UFRRJ) e professor de História na educação básica.

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1 Comentário

  • VAGNER GOMES DE SOUZA

    Nós podemos perceber que os descaminhos do sectarismo do social foram minando o tema da política desde 1986. O PT é o partido de Centro-esquerda que plantou a semente da antipolítica.
    Abraços ao autor.

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