Em 1986, nas eleições legislativas para a Constituinte, o sociólogo Luiz Werneck Vianna foi candidato a Deputado Federal pelo PMDB do Rio de Janeiro. Aqueles que gostam de fazer o exercício da memória das antigas campanhas eleitorais deveriam resgatar as imagens dessa campanha eleitoral, que foi a primeira após o prolongado período de autoritarismo no Brasil. O partido mencionado fazia um “círculo” de candidaturas ao legislativo, debatendo propostas no horário da propaganda eleitoral gratuita. Muito distante da competição individualizada nas eleições atuais.
Foi naquele ano que o PMDB se tornou vitorioso em todo o país ao ponto da imprensa o comparar ao PRI do México (uma comparação que demonstrava o temor dos meios de comunicação de uma hegemonia em favor de um Estado de Bem Estar Social). A comparação se apresentou como equivocada, pois o Partido de Ulisses era uma grande frente de diversificadas tendências que tinham em comum a luta pela derrota política do atraso ao qual o país se entregou após 1964.
Os liberais brasileiros compreenderam que o caminho democrático era uma possibilidade que beneficiaria a todos enquanto as forças políticas mais à esquerda, sob influência de uma cultura política do “partidão”, não se deixava levar por propostas sectárias. Haviam aqueles que anunciavam esse caminho como equivocado, ou seja, uma política de conciliação. Todavia, o tempo realocou todas essas forças aproximadas na campanha vitoriosa da oposição em 2022.
O reencontro da sociedade brasileira com a Democracia ainda não foi muito bem estudado pelos meios acadêmicos das Ciências Humanas, uma vez que o tema do social predominou em muitos trabalhos acadêmicos a partir de então. A Transição Democrática ainda é “lida” por alguns acadêmicos como um projeto conservador vindo de cima numa estranha mutação do populismo russo, dando voz a um novo populismo do século XXI.
De fato, reconstruir uma sociedade brasileira que se viu sufocada em 21 anos de autoritarismo foi uma ação política que se fez com a intervenção de Partidos Políticos e Intelectuais que debatiam nosso país para fora dos muros das Universidades. O desafio educacional estava em reduzir drasticamente nosso analfabetismo, que era em torno de 15%, enquanto vivíamos tempos sem o Sistema Único de Saúde (SUS). Essa ebulição da democracia formava novas lideranças vindas das comunidades populares, de uma Igreja Católica chamada de progressista e dos sindicatos.

A clivagem política e social nos fez conquistar uma Constituição com inúmeros avanços em diversos itens, sejam civis, trabalhistas, sociais e ambientais. Nosso país foi pioneiro do Código de Defesa do Consumidor e estabeleceu conquistas para crianças, adolescentes e segmentos sociais que eram marginalizados no Inverno Prolongado da Política Brasileira. Lembrar essas movimentações da política brasileira é muito importante para que possamos avaliar em qual momento esse processo desandou o como tentar impedir que um novo inverno prolongado se estabeleça pela manifestação das multidões ressentidas.
Se os ganhos do Estado de Direito Democrático e os sociais foram marcantes, o que justifica um ressentimento político aumentando em forma de espiral? Provavelmente por conta de não termos um partido como o PMDB, que se colocava com defensor de conquistas. Uma “universidade” de quadros políticos foi substituída por agremiações partidárias que pouco debate a política. As reuniões, quando ocorrem, se iniciam com dirigentes falando que não teremos uma longa reunião. Encontros cartoriais e festivos com pouco conteúdo reflexivo. E uma sociedade cada vez mais desacostumada a ler, ao ponto de que muitos que chegaram até esse ponto do texto já devem estar exaustos, uma vez que se acostumou a imagens. Mas a Grande Política ainda é esse ofício de grandes desafios, onde a “mercantilização” das avaliações da qualidade de ensino esvaziou o ofício dirigente dos educadores na sociedade brasileira.
A crise da Democracia brasileira se espelha na agressividade de pais e alunos contra os profissionais de educação nas unidades escolares. A saúde mental nesse universo, que deveria ser de construção do diálogo e do conhecimento, está profundamente abalada por uma ausência de disciplina que espelha os desvios extremistas nos quais uma parte da juventude está se alimentando, enquanto a apatia predomina em outros. Aqueles que forçam a pensar e a se indignar acabam se entregando à melancolia se não compreenderem o grave momento aos quais vivemos.
Não é a lei restritiva do uso dos celulares que expõe a grande conquista para o debate da educação. Pelo contrário, tamanha proposta expõe o quanto o espaço da sala de aula a cada momento precisa de intervenção externa a autoridade educativa do Professor. Dos risos vazios estamos a perceber a ausência de um programa mais coerente para reagrupar a Educação como uma fonte para a Democracia. Essa crise se enraíza por outros segmentos da sociedade nos permitindo testemunhar o crescimento do negacionismo científico contrário a eficiência das vacinas.
Nas mesmas unidades escolares, o debate sobre o meio ambiente se transformou num recurso com poucos retornos entre os jovens. O mais grave é o desconhecimento ser reforçado pela falta de interesse. Sem um espaço educacional qualificado e com partidos políticos submetidos à lideranças sem espírito público, estamos empurrando aos poucos o nosso país ao longo inverno político: o poder autoritário construído por aqueles que se deixam comercializar suas opiniões ou que “terceirizam” as decisões políticas em nome da busca de uma simplificação. Estamos, então, há poucos dias das eleições gerais no Brasil e muitos afirmam votar num candidato de oposição sem se preocupar com o que é proposto no programa. A justificativa seria que ninguém cumpre o que promete.
Saibamos, contudo, que o “Cidadão Vigilante” deveria se qualificar para reduzir tamanha distorção na política brasileira. Essa seria a importância das eleições ao legislativo; porém, quantos candidatos apresentaram um material de política na campanha eleitoral? Alguns parlamentares, até mesmo os do campo progressista, apresentam vídeos que se assemelham a pequenos memes em movimento. Não há política na campanha eleitoral e não se educa a sociedade brasileira para continuar na Democracia. E, assim, o populismo de extrema direita ganha um grande espaço nas casas legislativas. Por fim, teremos um grande desafio nos próximos dias, diante de campanhas com um alto grau de infidelidade até aos princípios das legendas que as abrigaram. O tempo está mudando e trazendo nuvens sombrias.
Vagner Gomes é Doutorando no PPGCP-UNIRIO e professor de História na Rede Estadual de Ensino no Rio de Janeiro.



