Nota do editor: O texto do cientista político Paulo Fábio Dantas Neto foi originalmente publicado no espaço Política, porque hoje é sábado. Com a devida anuência do autor, o Voto Positivo o republica como parte do esforço de balanço e reflexão que se segue ao primeiro turno das eleições gerais de 2026 e que também vem encontrando espaço neste blog. Agradecemos a Paulo Fábio pela gentileza de autorizar esta republicação e esperamos poder contar, no futuro, com novas contribuições de sua autoria.
Achei boa a fala de Lula após a apuração dos votos do primeiro turno. Penso que foi o melhor possível como reação serena, no calor da hora, num momento em que ele está diante, talvez, da competição mais fatal da sua vida pública. Admitir, como admitiu, que tomou uma lição de democracia insinua um bom recomeço. Logo saberemos se essas palavras se sustentarão ou se a força da inércia do seu campo ou da sua personalidade o manterá na busca de uma “bala de prata”, ou, ainda se, além disso, deslizará para ceder a tentações como a de usar a AGU pra espalhar suspeitas sobre a eleição. Mas o arriar de malas para o segundo turno foi um gesto de experiente profissional. Bem melhor do que o da criatura imprudente que está vencendo a eleição e decretou o “fim da era do PT” antes da batalha decisiva.
Quero dar um pitaco preliminar sobre esse aparente “pós-tudo”. Em primeiro lugar, virar a eleição a essa altura não é impossível, mas muito difícil. Os dois pontos de diferença não seriam, em si, o principal obstáculo se a fala realista de Lula pudesse prevalecer sob as camadas de ressentimento que foram se erguendo, reciprocamente, entre ele e a maioria do país, há mais de uma década. Ainda que uma parte dessa maioria tenha votado nele, mais uma vez, em 2022, aquele momento foi só uma trégua que precisaria ser usada para repactuar de modo mais perene a relação entre o governante e os governados.
Ninguém pode ter certeza de que essa repactuação, sugerida pela ideia de pacificação do país, seria realmente possível, pois o contexto político, dentro e fora do Brasil, era e é áspero para quem busca moderação. Como lembrou Cila Schulman, do Instituto Ideia, numa live no último sábado, atualmente, nas democracias, ser incumbente numa eleição tem se tornado, em vez de uma vantagem, um desafio. O problema adicional com Lula é que, num país saturado de uma briga mais afetiva que política, se não está nem poderia estar nítido que a pacificação era possível, ficou menos claro ainda que Lula a tivesse sinceramente tentado. As evidências são de que subestimou essa difícil, duvidosa, mas necessária missão, equivocadamente julgou a sua dívida com o eleitorado zerada e a si mesmo, como até um credor.
Esse desentendimento é a mais recente camada de ressentimento, agregada nos últimos quatro anos e que parece ter sido fatal. Haja o que houver daqui a três semanas com a sua biografia eleitoral, já foi uma derrota muito contundente de todo um espectro político e não apenas da sua pessoa. Derrota que se mede pela correlação de forças quantitativa do Congresso, pela composição qualitativa do Senado, pelo sentido da ascensão do PL, que fez da polarização com o lulismo a sua palavra-chave e pelo fracasso do campo governista na grande maioria das disputas estaduais. Tudo isso é e continuará sendo fato, mesmo que a sagacidade e a resiliência da figura pessoal de Lula lhe permitam sobreviver, mais uma vez, na presidência da República. Governar o país real – isso sim e não a virada – parece impossível, ou quase isso. Para consegui-lo, ele, seu partido, liderados e os aliados que puder segurar nessa hora difícil precisariam inventar novo personagem e nova atitude política. Para Luís Inácio seria reinventar-se publicamente, aos 81 anos, aceitando o encargo de substituir Lula. Convenhamos que é pedir muito.
Tão importante quanto o que Lula fará nas próximas três semanas é o que fará na sequência o pelotão dos que se afogaram com ele no primeiro turno, caso a imersão completa não possa mais ser revertida. Geraldo Alckmin, Simone Tebet, Marina Silva, Eduardo Paes e outros pelo país afora. Um campo político de centro e centro-esquerda que se associou ao Lula 3, resignando-se a baixa visibilidade própria, pode, agora, articular-se com Raquel Lyra, Tábata Amaral, Daniel Vilela, Ricardo Ferraço, Renato Casagrande e mesmo um perdedor jovem, presidente de partido, como João Campos, ou um formulador e gestor experiente como Paulo Hartung. Um balanço do insucesso do “entrismo” como conduta do centro democrático pode apontar, a esses quadros políticos – e a um conjunto de conhecedores do país pela ciência e pela administração pública que pode ser mobilizado- o caminho da construção de uma oposição qualificada e democrática ao eventual governo Bolsonaro. Caminho a percorrer em paralelo à reflexão que precisa ocupar o PT e a esquerda lulista e que será renovadora se elas não encontrarem mais no centro democrático um corrimão anódino para se manterem em cima de um trapézio avariado.

Bandas distintas do campo democrático que se juntaram-no segundo turno de 2022 poderão passar por paralelas terapias políticas para que cada qual lamba suas próprias feridas, que são também distintas. Faz parte desse esforço de busca de eixos aceitar, inclusive, que o campo democrático é mais amplo e inclui parte da direita também. Isso não significa que todos os democratas devam se unir como oposição ao presumido governo Flavio, mas compreender que, apesar das intenções de governantes ocasionais, a política brasileira precisa voltar a ter governo e oposição democráticos como seus eixos estruturadores.
Esse desafio estará também posto no caso de Lula conseguir reverter a desvantagem eleitoral. Isso porque então se colocará fortemente o tema da governabilidade, que depende de a possibilidade de forças ao centro terem papel crucial num real governo de coalizão, com programa e responsabilidades compartilhadas, como condição para integrarem a sua base. Em caso de resistência do presidente e seu partido, o caminho da oposição também se colocará para essas forças do centro, implicando, nesse caso, sua maior interação no campo da centro-direita sem confundir sua voz com a da oposição bolsonarista.
Essas duas hipóteses de reenquadramento do tema do “centro” (a depender de quem vença o segundo turno) estão em sintonia com o que se delineia como realinhamento de forças na política brasileira. A direita aumentou sua força num modo PL e isso se combina com um recuo relativo da força do centrão no Congresso, algo que não estava no radar. Ao lado e cada vez mais atentas a esses movimentos espera-se que estejam áreas ativas da sociedade civil que não foram tomadas pela letargia advinda da sensação acomodatícia de nos últimos anos voltar a ter amigos no palácio. E mesmo as que se deixaram distrair podem também participar do novo cuidado, não só para vigiar os adversários que governarão, como também para influir na partitura da oposição na vida real, para além do medo e da indignação.
A derrota política escancarada no primeiro turno tem essa dimensão profunda, mas o processo não se encerra nela. Talvez a eleição, em si, já tenha ido embora e os números do segundo turno apenas confirmem os do primeiro. Mas não tem cabimento permitir que piorem e isso é possível, tanto pela desmobilização de aliados cujas vidas eleitorais já foram resolvidas no primeiro turno, quanto pela hipótese de radicalização de discursos desesperados. Será um equívoco pensar que é desimportante a maneira de perder. Se os perdedores (e não estou falando apenas de Lula e do PT) tiverem essa consciência começarão, nessas três semanas, a refazer as pontes com o povo, detonadas pelo que foi dito e feito durante anos. Enquanto a pequena política é como cabelos, aos quais quem a monta se agarra para não cair do seu galope, a grande política é como unha, regenerável se houver vida inteligente e razão a serviço de causas comuns, que a experiência do contato com o solo e o subsolo revela.
Além de ser como unha, a política, no conhecido dizer de Max Weber, é lento esperar de tábuas duras. Essa percepção não me parece revogada por mudanças estruturantes da era digital. Uma reconstrução política depende do número e da qualidade de quem, manejando tecnologia adequada, possa dizer, “apesar de tudo, eis-me aqui”. No caso específico, depende do número e da lucidez de quem tiver consciência de que não há chance nem sentido de 2030 ser um quarto turno de uma disputa que desde sempre foi inglória. Deixar que se embaralhem as cartas para um novo jogo. É disso que se trata.
Como analisei acima, creio ser desejável e possível que os vários sócios do condomínio político derrotado tenham que operar a reconstrução em diferentes espaços e em diferentes ritmos, de acordo com as suas específicas situações. Mas é importante que o serviço seja feito por todos, porque todos são parte do país que é preciso recuperar. Se é bom conselho pensar no futuro sem esquecer do passado, uma das questões a decidir é se pensaremos em 2030 e mais além com os olhos da memória postos nos heróis combatentes de 1968 ou nos artesãos políticos de 1974. Sinto-me, como sempre, alistado entre esses últimos e o resultado parcial dessa eleição não muda essa atitude, antes a reforça.
Essa é, porém, só uma entre várias questões que formam uma extensa e intensa pauta sobre o nexo a ser encontrado entre presente e futuro, pauta na qual o passado cumpre apenas o papel de vaga lembrança de fundo. É imprudente nos agarrar a ele, enquanto a caravana contemporânea passa fazendo barulho o bastante para não permanecermos distraídos com nossas diferentes certezas. É preciso nos abrir, realmente, para lições da democracia como a desse marcante quatro de outubro. Abertura que pode nascer de emoções, mas só pode vingar se acionar, primeiro, o pensamento. Daí poderão vir as palavras mais adequadas e as boas obras. Já que aos vencedores cabe as batatas, plantemos outras sementes.
Quais? Será o ponto seguinte da pauta, assim que nos entendermos sobre a atitude política, isto é, sobre uma predisposição positiva a compreender a lição primária das democracias pluralistas: respeitar – sem idolatrar, nem desqualificar – a vontade da maioria do povo, principalmente quando contraria a nossa.
Paulo Fábio Dantas Neto é Cientista político e professor da UFBA. E-mail: [email protected]



