Que ilumine mais do que um incêndio, por Ricardo Marinho

Agora o Brasil teve sua explosão democrática. No país com educação pública gratuita e um estado de bem-estar social inconcluso, também se manifesta um mal-estar. E o desconforto que inflamou essas multidões que tomaram, durante esses 20 dias o segundo turno brasileiro é diverso do desconforto que devastou nossas ruas em 2013 e que levantou como justificativa um mundo de questões em torno das injustiças, desigualdades e lucro. Ao relembrar as imagens de um Brasil desesperançoso em 2013, com uma miríade de slogans nas paredes, sinto os cheiros dispares sem unidade e as imagens do nosso próprio surto voltam a pulular na memória. Participo desse rememorar, lembrando aqueles os dias de fúria, quando tudo parecia fora de controle e, acima de tudo, a própria racionalidade daqueles que deveriam ter condenado as ações sem ambiguidade, mas permaneciam ameaçadoramente silenciosos. E também aqueles que apresentaram argumentos para justificar a resposta aquela desaprovação.

Hoje, ao rever a caminhada desses 20 dias, eu pisava firme diante de um cenário fantasmagórico entre a conjuntura turva e difícil. Alguém poderia perguntar: “Professor, o que você acha de tudo isso?” É provável que formulasse: “Pensemos muito e com esse exercício chegaríamos ao pessimismo da razão. Mas, ao olhar aquelas multidões, recordaríamos o nosso otimismo da vontade de quando estávamos a frente de uma outra multidão de jovens.” O otimismo da vontade, é claro, pode ter tanto poder quanto o pessimismo da razão – e mais: diríamos, com o nosso cancioneiro, que é preciso ter força, é preciso ter raça, é preciso ter gana sempre, e possuir a estranha mania de ter fé na vida. Mas os anos passaram e precisávamos mostrar que 2026 não seria como 2013. E foi isso que fizemos nesses 20 dias, 13 anos depois. Essa conquista da frente democrática que se expressou nas ruas e além delas implica e necessita a iminente autocrítica profunda e honesta sobre suas abdicações em momentos cruciais para nossa democracia, para que faça jus ao voto de confiança reposto e quase perdido. A direita também precisa agir e perceber que existe um novo povo (resultado da mesma modernização que o país promoveu), que deve ser conhecido e ouvido em suas dores, desejos (muitos irrealistas) e falhas. Precisamos de analistas finos e perspicazes, mas conectados à realidade para podermos ter a descrição rigorosa, e não teóricos de salão. Antes disso, as pessoas se tornam uma massa em 2026 e não no enxame de 2013.

Elias Canetti testemunhou o incêndio do Palácio de Justiça em Viena em 1927, e ficou tão impressionado que tentou entender como uma massa dilui a responsabilidade individual e produz uma energia que precisa ser descarregada, e que as vezes termina em destruição. No seu clássico Massa e poder (Tradução: Sérgio Tellaroli. São Paulo: Companhia de Bolso, 2019): Fala-se muito da ânsia de destruição da massa; é a primeira coisa nela que nos salta aos olhos, e é inegável que se trata de algo encontrável em toda parte, nos mais diferentes países e culturas. Embora se constate e desaprove tal ânsia, ela jamais é realmente explicada. E acrescenta: O mais impressionante de todos os meios da destruição é o fogo. Ele é visível de longe e atrai mais pessoas. Além disso, destrói de modo irrevogável. Depois de um incêndio, nada permanece como era. Ateando fogo às coisas, a massa julga-se invencível. À medida que o fogo se propaga, tudo se junta a ela. Ele aniquila tudo o que lhe é hostil. Como se verá, o fogo é o símbolo mais vigoroso que existe para a massa. E, terminada a destruição, o fogo, assim como a massa, tem de extinguir-se.

Enquanto a natureza nos mostra um fenômeno do El Niño desgovernado em diferentes partes do planeta, a história acabou de mostrar a nós, que os jovens, as multidões podem explodir o coração com um amor incomum. Recentemente, nesses 20 dias, vimos as ruas transpirando a democracia e sua frente. Entender as massas? Sim, claro, mas também precisamos dirigi-las e, às vezes, impedi-las. Alguns precisam do otimismo da vontade … outros dialogam (como nós, em todos os espaços) e outros (também como nós), fazemos política de verdade e não circos. Quando as tempestades chegam, como aconteceu conosco no resultado do primeiro turno brasileiro, nós mostramos que estávamos preparados. Lúcidos e lúcidas. Acordadas e acordados. Para que a coragem cívica e a prudência pudessem iluminar o caminho que tínhamos que fazer e fizemos mais do que incêndios.

25-26 de outubro de 2026

 

Ricardo Marinho é Membro da Comissão Própria de Avaliação (CPA) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Representante dos Professores no Conselho Diretor da Associação dos Empregados de Nível Universitário da CEDAE (ASEAC) e professor da UniverCEDAE, da Faculdade Unyleya e da Teia de Saberes.

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1 Comentário

  • Diego Paiva de Souza

    majestoso!

  • Vagner Gomes

    Uma leitura obrigatória!!!

Comentários

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