10 anos de Blake, por Pablo Spinelli

Para Walkiria, pelo amor e companheirismo de 18 anos.

 

Aos 80 anos, Ken Loach realizou *Eu, Daniel Blake* (2016) com a indignação de quem ainda não aceitou que a injustiça deva ser tratada como parte natural da paisagem. Diretor britânico identificado com o realismo social, Loach construiu uma obra dedicada aos trabalhadores, aos desempregados e às pessoas comuns geralmente expulsas do enquadramento pelo cinema comercial. Filmes como Kes e Terra e Liberdade  revelam uma coerência política raríssima, sobretudo numa indústria em que a rebeldia costuma durar apenas até a primeira boa bilheteria. Ao conquistar sua segunda Palma de Ouro em Cannes com Eu, Daniel Blake, o diretor demonstrou que o drama de um carpinteiro adoecido poderia dizer mais sobre a Europa contemporânea do que muitos discursos ministeriais recheados de números, metas e uma comovente ausência de seres humanos ([FESTIVAL DE CANNES, 2016](https://www.festival-cannes.com/en/retrospective/2016/awards/)).
 
Daniel, interpretado por Dave Johns, sofre um problema cardíaco e recebe dos médicos a recomendação de não retornar ao trabalho. Entretanto, uma avaliação administrativa conclui que ele está apto, obrigando-o a procurar emprego para continuar recebendo auxílio. Começa então uma peregrinação por telefonemas, formulários digitais, entrevistas e sanções. Daniel não é preguiçoso, irresponsável ou desonesto: trabalhou durante décadas, pagou impostos e contribuiu para o sistema. Seu pecado é adoecer numa sociedade que transformou vulnerabilidade em suspeita. Ao conhecer Katie, mãe solo de duas crianças, o personagem percebe que sua tragédia não é individual. A sequência na qual ela, faminta, abre uma lata dentro de um banco de alimentos está entre as cenas mais dolorosas do cinema recente. Loach não precisa recorrer à música grandiosa nem a longos discursos: basta mostrar uma mulher com fome numa das economias mais ricas do planeta. A burocracia, quando organizada para impedir o acesso a direitos, consegue ser violenta sem levantar a voz.
 
O filme expõe os efeitos duradouros do neoliberalismo iniciado no Reino Unido pelo governo Margaret Thatcher, a partir de 1979. Privatizações, enfraquecimento dos sindicatos, flexibilização do trabalho e redução das responsabilidades sociais do Estado foram apresentados como modernização inevitável. Governos posteriores mudaram o vocabulário, mas não desmontaram inteiramente essa arquitetura. O resultado aparece na obra em tela: o Estado não desapareceu, como prometiam seus críticos liberais; tornou-se extremamente presente para fiscalizar, constranger e punir. Há funcionários, computadores, metas e protocolos, mas falta justamente aquilo que justificaria sua existência: a proteção do cidadão. O neoliberalismo produziu, assim, uma curiosa máquina pública que economiza no benefício e desperdiça na humilhação. Daniel não pede caridade. Pede que o reconheçam como integrante da sociedade para a qual trabalhou durante toda a vida.
 
 
No Brasil, o contraponto a essa lógica está na Constituição de 1988. A chamada Constituição Cidadã organizou a seguridade social sobre três pilares — saúde, previdência e assistência — e estabeleceu que saúde é direito de todos e dever do Estado. O SUS e o INSS não são presentes ocasionais de governos, mas construções públicas derivadas desse pacto democrático ([BRASIL, 1988, arts. 194 e 196](https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm)). Durante a pandemia, quando empregos desapareceram e milhares de famílias perderam sua renda, o SUS atendeu doentes, organizou a vacinação e sustentou uma resposta nacional apesar de todas as dificuldades. Ao mesmo tempo, aposentadorias, pensões e benefícios assistenciais ajudaram a manter famílias inteiras. Estudo do Ipea mostrou que, nos domicílios dependentes da renda dos idosos, eles respondiam por 70,6% da renda familiar, sendo 62,5% proveniente de aposentadorias ou pensões ([IPEA, 2020](https://repositorio.ipea.gov.br/)). Em muitos lares, a aposentadoria que alguns economistas chamavam de “despesa” foi o dinheiro que comprou comida, remédio e pagou a conta de luz.
 
Dez anos depois, Eu, Daniel Blake deve ser visto também como advertência para as eleições brasileiras. O eleitor precisa perguntar quais candidatos aos Executivos e aos Legislativos estão verdadeiramente comprometidos com a Constituição de 1988. Quem pretende fortalecer o SUS, o INSS, a assistência social e os direitos trabalhistas? Quem os trata como patrimônio coletivo e quem os apresenta como entraves fiscais? Não escolhemos apenas presidentes e governadores: elegemos parlamentares que aprovam orçamentos, modificam direitos e decidem se a seguridade social continuará existindo. Esquecer o papel desempenhado pelo Estado, pelos profissionais da saúde, pelos aposentados e pelas redes públicas durante a pandemia seria uma forma grave de ingratidão histórica. Daniel Blake nos lembra que ninguém se salva sozinho e que uma sociedade somente merece esse nome quando não abandona quem adoece, envelhece, perde o emprego ou necessita de proteção. Defender a Constituição de 1988 é impedir que o Brasil obrigue cada cidadão vulnerável a escrever numa parede, mais uma vez, que ainda existe, que ainda “estou aqui”…
 
 
Pablo Spinelli é Doutorando em Ciência Política (UNIRIO), Mestre em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade (UFRRJ) e professor de História na educação básica.
Compartilhe:

Comentários

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Textos relacionados:

Edit Template

Aqui desejamos criar uma cultura política democrática e republicana.

© 2023 Created with Royal Elementor Addons