Obra resenhada: Joseph E. Stiglitz. O caminho para a liberdade: Transformar a Economia e a Sociedade, criando um futuro livre para todos. Tradução de Maria de Lourdes Sete. Primeira Edição. São Paulo, Benvirá: 2025. 372 págs.
Resenhar o livro mais recente do Prêmio Nobel em Ciências Econômicas de 2001 dispensa apresentações, dada a sua ampla reputação no mundo. Na hipótese de alguém ainda não ter tido a oportunidade de conhecê-lo, Joseph E. Stiglitz é professor da Universidade Columbia e economista-chefe do Instituto Roosevelt. Foi presidente do Conselho de Assessores Econômicos do Presidente Clinton e economista-chefe do Banco Mundial. Ao longo de sua extensa carreira, Stiglitz desenvolveu uma perspectiva crítica sobre as abordagens correntes na economia e sobre os resultados (ineficientes e injustos) da economia de livre mercado (ou como ele sabiamente chama de “economia de mercado descontrolada”, sem regulação, regulamentação e/ou mecanismos de controle). Ele elaborou essa perspectiva crítica da economia em seus livros como A Globalização e seus Malefícios (2002), O mundo em queda livre (2010), O Preço da Desigualdade (2013), O grande abismo: sociedades desiguais e o que podemos fazer sobre isso (2016) e Povo, poder e lucro: Capitalismo progressista para uma era de descontentamento (2020), entre muitos outros.
Para começar, vamos ler um trecho da seção intitulada O caminho para o populismo, do capítulo 14, intitulado Democracia, liberdade, justiça social e a boa sociedade: “Empunhando a própria bandeira da liberdade, os neoliberais, e, ainda mais, a extrema Direita tem defendido políticas que restringem as oportunidades e liberdades (tanto políticas quanto econômicas) da maioria em favor de uns poucos. Todos esses fracassos econômicos e políticos associados ao neoliberalismo prejudicaram grandes parcelas da cidadania, muitas das quais responderam com uma guinada para o populismo, atraídas por figuras autoritárias como Trump, Bolsonaro, Putin e Modi. Esses homens procuram bodes expiatórios para explicar o que deu errado e oferecerem respostas simplistas para questões complexas.” (Joseph E. Stiglitz. O caminho para a liberdade: Transformar a Economia e a Sociedade, criando um futuro livre para todos. São Paulo, Benvirá: 2025. p. 283).
Essa passagem revela o tom da argumentação do livro, que coloca de pé a perspectiva econômica e sua conexão incontornável com a política, e isso torna necessária uma revisão do trabalho teórico à luz da questão da economia política, mais intimamente ligada à filosofia política e ao direito e não só.
O Caminho para a Liberdade revisita conceitos importantes como: ideologia, as questões ambientais e sociais (estas muito importante e pouco estudadas), assimetria de informação (que lhe valeu o Prêmio Nobel), o papel do Estado e a economia do setor público.

Para Stiglitz, a economia não pode ser vista isoladamente e precisa ser entendida na sua relação com a política e outras dimensões. Nesse sentido, Stiglitz trará à baila aspectos da economia comportamental e da economia institucional, para examinar o papel do Estado e suas limitações. do mercado no mundo globalizado.
Neste contexto, o livro levanta uma questão fundamental para as conjunturas: como podemos pensar em liberdade em tempos nos quais forças políticas dos extremos (como a extrema-direita) deseja se apropriar desse ideal e o utiliza mais uma vez para servir a seus interesses à revelia aos alheios? Embora isso não seja novidade, nem pode ser entendido apenas como mais uma perspectiva do espantalho do neoliberalismo, mas o tema se aprofunda num momento em que o mundo enfrenta três problemas sem precedentes: desigualdade econômica, mudanças climáticas e polarização política.
A leitura apresentada no livro ocorre no contexto de Trump 2, que aprofunda os debates sobre liberdade e democracia, onde o papel dos grandes empresários, que impactam e influenciam a tomada de decisões políticas a partir da gestão de mídias e redes sociais que orientam não apenas as decisões de consumo, mas o senso comum dominante com discursos abertamente xenófobos, racistas, classistas e patriarcais.
Parece, então, que o ideal de liberdade trazida no Iluminismo, que será tratada por Isaiah Berlin (1909-1997) e John Rawls (1921-2002), à qual Stiglitz se refere frequentemente, é diluída gelatinosamente para trazer uma leitura finíssima do Gramsci (1891-1937) no livro, e com ela a democracia liberal, o Estado de bem-estar social e tudo o mais, como o quadro de direitos humanos, incluindo, é claro, os direitos à saúde, habitação, educação, entre outros, que estão ameaçadas pelos cortes orçamentários.
Nesse contexto, a obra de Stiglitz faz parte das vozes contra as camisas de força ideológicas do pensamento hegemônico, como nos diz André Lara Resende, e é importante ampliá-lo para contemplar o mundo global. E ainda mais importante, porque nesta era em que a economia é pensada apenas sob a perspectiva dogmática, é necessário voltarmos nossos olhos para a economia política e repensarmos nossas abordagens. Princípios de ciências que caminham verdadeiramente rumo à liberdade com justiça social.
17 de maio de 2026
Ricardo Marinho é Presidente do Conselho Deliberativo da CEDAE Saúde e professor da Faculdade Unyleya, da UniverCEDAE e da Teia de Saberes.




2 Comentários
Debate programático com a extrema direita não existe! Ela só quer destruir e entregar nossas riquezas e nossa do serania e no caminho levar vantagem! O Facismo tem que ser destruído! Precisamos debater muito é o que levou a essa situação que estamos hoje! O que deu muito errado e partir para resolver! Precisamos urgente de um projeto de país: planos anuais ou quinquenais pelo menos aprovados pelo Congresso Nacional que não dependa de quem está na administração do Estado!
Uma resenha que tenta forçar um debate de programa político numa pré-campanha com pouco debate programático.