Jacinda Ardern, uma outra forma da política – Por Ricardo Marinho

Livro resenhado: ARDEN, Jacinda. Um tipo diferente de poder: Memórias de uma líder humanista. Tradução de Natalie Gerhardt. Primeira Edição. Rio de Janeiro, Objetiva: 2025. 530 págs.

 

Em um momento em que a política parece ter perdido qualquer vocação para o servir, Um tipo diferente de poder, o livro com o qual Jacinda Ardern reflete sobre sua própria experiência política, destaca-se como um texto na contracorrente que revela uma forma de engajamento público. Ex-primeira-ministra da Nova Zelândia, que se tornou um símbolo global de uma forma da política empática e resoluta, Ardern explica nestas páginas o que significa exercer poder sem cair na tentação da política da adoração e, acima de tudo, sem perder a própria humanidade.

Não é uma autobiografia nem um panfleto, mas sim uma reflexão civilizada, na qual a vida pessoal e a responsabilidade pública estão entrelaçadas. Ardern relata os eventos que viveu, desde os atentados de um militante de extrema-direita a Mesquita Al Noor em Riccarton e no Centro Islâmico Linwood em Christchurch até a erupção do vulcão Whakaari, passando pela gestão exemplar da pandemia, mas faz isso evitando qualquer política triunfal e celebração de seus sucessos. O que se faz notório é o tom: composto, essencial, e sempre voltado para o “nós” em vez do “eu”. A atitude no dia seguinte ao atentado foi anunciar um período de luto nacional e faz a visita a comunidade muçulmana em Phillipstown Community Hub é emblemático: a primeira-ministra não trovejou contra o perpetrador que havia atacado covardemente outros cidadãos pacíficos, ela não invocou repressão e/ou vingança. Ela usou o véu como sinal de respeito, abraçava as famílias das vítimas, escolhia palavras de compaixão e proximidade. Em resposta aos atentados, Ardern anunciou a intenção de seu governo de introduzir regulamentos mais rígidos sobre à venda de armas de fogo, tendo o Parlamento da Nova Zelândia, em poucos dias, aprovado. Um gesto político decisivo, mas enraizado numa ética da escuta.

No panorama ocidental e ainda mais no brasileiro, esse estilo é o oposto da lógica política dominante, onde invectiva, marketing do ego e a construção permanente de inimigos prevalecem. Ardern, por outro lado, propõe uma ética de responsabilidade – como na exemplar conferência A Política como Vocação de 1919 de Max Weber (1864-1920) e moderação. Suas decisões, mesmo as mais complexas, são sempre inspiradas pelo interesse coletivo, nunca pela própria vantagem política.

O livro é transversalizado por outro fio condutor: a maternidade. Ardern foi a segunda líder no mundo a dar à luz durante seu mandato – a primeira foi primeira-ministra do Paquistão, Benazir Bhutto (1953-2007) – e, ao relatar essa experiência, ela não foge da complexidade. Ela relata um episódio esclarecedor: durante uma reunião diplomática, ela interrompe momentaneamente aquela atividade para amamentar a filha. Ela fez isso sem nenhuma exibição e/ou justificativa, com a sensação primorosa de uma outra atividade que pode e deve acontecer simultaneamente a tantas outras que devem coexistir no espaço da vida pública. No Brasil, as mulheres na política ainda não encontraram esse tom e frequentemente acabam a se camuflar sob um código das mulheres com dureza e presumida infalibilidade. Ardern oferece uma política diferente. Não reivindica uma diversidade feminina abstrata: ao contrário, demonstra que se pode ser política sem sacrificar a mulher, a mãe, a pessoa.

Mas talvez o gesto mais poderoso de Jacinda Ardern seja aquele que conclui o livro: a renúncia. Em janeiro de 2023, ela anunciou sua renúncia com um motivo tão simples quanto revolucionário: ela entendeu que não tinha mais reserva energética suficiente para seguir fazendo bem esse trabalho. Sem crise, sem escândalo. Apenas o reconhecimento dos próprios limites. Um ato inédito em nosso tempo, onde os poderosos se projetam todo – como no mito do auto admirador Narciso – no poder. Enquanto no Brasil figurações de todos os partidos se agarram a todos aos cargos em uma ocupação total dos assentos disponíveis que frequentemente resulta na perda das próprias instituições, Ardern, por outro lado, escolheu sair quando sentiu que não conseguiria seguir dando o melhor de si mesma. O livro nunca contém lições morais, mas indiretamente apresenta uma crítica pertinente e urgente a essa forma de entender a política que vive de polarizações (sobretudo as inventadas), simplificações e exibições em redes. Sua resposta não é uma outra narrativa e/ou uma contranarrativa, mas uma práxis: concreta, silenciosa, composta.

Um tipo diferente de poder não é um manual, e não afirma oferecer fórmulas replicáveis. É antes um testemunho, mas capaz de levantar questões profundas: o que realmente buscamos naqueles que nos governam? É possível imaginar uma política que não seja guerra, conflito, animosidade, mas cuidado? E acima de tudo: estamos prontos para reconhecer o poder como uma responsabilidade e não como uma posse?

Na era da política tóxica, Ardern nos lembra que outra forma de fazer política é possível. Você precisa de visão, coragem e força para se afastar quando chegar a hora.

22 de março de 2026

 

Ricardo Marinho é Presidente do Conselho Deliberativo da CEDAE Saúde e professor da Faculdade Unyleya, da UniverCEDAE e da Teia de Saberes.

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1 Comentário

  • Corbiniano Cordeiro

    “Estamos prontos para reconhecer o poder como uma responsabilidade”? Fantástico a colocação da autora; aplica-se como uma luva à nossa realidade atual..

Comentários

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