Passaram-se apenas algumas horas desde que os Poderes Executivos Federal, Estaduais e Municipais fizeram as desincompatibilizações dos cargos, e consequentemente a seriedade, a eficiência e o apoio da maioria face a esse processo que contém características definidoras parece estar bastante enraizado no cenário político.
É claro que seria um erro julgar quaisquer dos governos recém-formados com base no que aconteceu ex-ante. Eles têm todo o tempo regulamentar para melhorar e corrigir seu rumo, inclusive para provar que o que parece equivocado hoje não era equivocado de fato e tinha um propósito.
Mas, no momento, não é possível afirmar o que se passará, entretanto, os tons ásperos e erros conceituais já surgiram, o que envenena o ambiente político.
A perplexidade, a extrema rapidez e as medidas impressionistas que já estamos testemunhando não se combinam com a démarche democrática, a seriedade da ação de um governo e a visão necessária face ao tempo regulamentar que nos encontramos.
Essas características confusas tendem a combinar melhor com projetos gerais e ideias mal compreendidas, como ocorreu nos governos sucedidos.
A capacidade de um governo se manifesta em situações difíceis, quando os problemas que ele precisa enfrentar mudam inesperadamente, especialmente em momentos de crise.
A situação atual mudou muito. O momento geopolítico e econômico se deteriorou, o líder da principal potência mundial é um iludido e pouco confiável, vivemos em completa incerteza e os impulsos bélicos substituíram a predominância da diplomacia e cooperação global. Estes são tempos turbulentos que nos deixarão sérias consequências.
O atual choque do petróleo precisa ser enfrentado com firmeza, sem populismo, é claro, mas com serenidade e sem dogmas doutrinários cegos, tendo em mente que tão importante quanto recuperar a disciplina fiscal é evitar o crescimento de um sentimento de injustiça diante dos problemas, de indiferença social diante da adversidade.
É aconselhável um esforço equilibrado para evitar o senso comum, entre aqueles que mais sofrerão com os efeitos da crise, de que enquanto os que têm mais têm seus impostos reduzidos, os que têm menos têm sua renda diminuída.
Não é crível dizer que “não há outra opção”. Nunca existe apenas uma opção na atuação governamental.
Sabemos que o aumento do investimento não depende automaticamente de benesses para potenciais investidores. É fruto, talvez, mais da credibilidade do país, do seu bom funcionamento e da validade e cumprimento das regras do jogo e suas normas.
Portanto, além de reduzir racionalmente os possíveis desperdícios públicos, é possível até mesmo adiar temporariamente alguns efeitos da reforma tributária, acelerando projetos paralisados por excessos anteriores, sem empobrecer os mais vulneráveis e sem criar condições para o colapso da convivência social por conta do endividamento.
Ao que parece, nas medidas tomadas até agora, que também apresentam aspectos positivos, está a emergir a necessidade de discernimento político que não é caudatária de uma imaginaria magica comunicacional.
Por vezes, parece que os ministérios não têm interlocutores políticos que equilibrem as soluções políticas e as propostas econômicas.
Nossos ministérios vivem dizendo que querem ser simpáticos e compreendidos. Tudo bem. Eles podem ser simpáticos se quiserem. O que importa para o país é que eles não se tornem insensíveis ao bem-estar dos brasileiros e brasileiras em nome de suas convicções ausentes de responsabilidade.
Num mundo tão complexo como o que enfrentamos, é necessário pensar e repensar as ações de política nacional e internacional. É bem possível que, após os resultados do segundo mandato de Trump, o iliberalismo deixe de ser tão popular, e alguns sinais disso já começam a aparecer; basta observar o resultado do referendo de Meloni na Itália, os índices de apoio a Milei, os temores de Orban e os resultados das eleições municipais na França.

Daí a necessidade de se falar de união nacional, dadas essas condições, é totalmente coerente. É verdadeiramente viável com o primeiro passo na reedição da bem-sucedida Frente Democrática de 2022, com a sua chapa também reeditada em 2026.
Para tanto ela faria bem em recorrer aos pais do pensamento social e político brasileiro e não apenas.
A relação entre ‘fortuna’ e ‘virtude’ é um dos temas mais sutis em O Príncipe (1513-1532), de Maquiavel (1469-1527). Trata-se de uma teoria da ação política em situações de incerteza. Para Maquiavel, a fortuna é a soma de circunstâncias imprevistas, aquelas que estão além do nosso controle: mudanças inesperadas, crises e oportunidades.
A virtude (virtù) não se refere à moral filosófica e/ou religiosa. Trata-se de prudência, audácia e adaptabilidade. É preciso encontrar a melhor dinâmica entre as duas. Não podemos eliminar a sorte, mas podemos buscar reduzir seu poder.
Achar a relação fina entre virtude e fortuna é a única maneira de criar um bom andamento governamental e não só. Isso exige serenidade, não excitação.
4 de abril de 2026
Ricardo Marinho é Presidente do Conselho Deliberativo da CEDAE Saúde e professor da Faculdade Unyleya, da UniverCEDAE e da Teia de Saberes.
Imagem da capa: helicóptero sobrevoa o Estreito de Ormuz



