Ao quase negro, quase branco, quase viril, quase sensível, mas sempre amigo, Vagner Gomes, lutador das boas batalhas.
Em 2026, Raízes do Brasil completa noventa anos com a desconfortável vitalidade dos livros que envelhecem melhor do que o país que pretendiam interpretar. Publicado em 1936, num mundo seduzido por autoritarismos e num Brasil que caminhava para o Estado Novo, o ensaio de Sérgio Buarque de Holanda atravessou ditaduras, redemocratizações, planos econômicos, impeachments e salvadores da pátria de variadas colorações. Talvez por isso cause estranhamento que o Partido dos Trabalhadores, do qual Sérgio Buarque foi fundador e um dos primeiros signatários, pareça tê-lo cordialmente esquecido. Não se trata de um apagamento administrativo: a Fundação Perseu Abramo conserva um centro de documentação com seu nome e já promoveu eventos dedicados à sua obra. O esquecimento é mais sutil — e, portanto, mais brasileiro. Sérgio permanece na placa, no arquivo e na fotografia histórica, mas raramente aparece na formação política das novas gerações e militâncias. Preserva-se o nome enquanto se dispensa a leitura, essa forma muito nacional de homenagear um intelectual sem correr o risco de ser perturbado por suas ideias.
Reduzir Raízes do Brasil ao ‘homem cordial’, como fazem apostilas apressadas e comentaristas ainda mais apressados, seria semelhante a resumir Machado de Assis ao ciúme de Bentinho. A cordialidade não significa bondade, delicadeza ou vocação natural para receber turistas durante o carnaval. Derivada do cor, do coração, ela designa o predomínio dos afetos privados sobre as normas impessoais que deveriam organizar o espaço público. O cordial pode abraçar, insultar, favorecer um amigo ou destruir um adversário com a mesma intensidade, pois sua conduta nasce menos do reconhecimento da cidadania do que da lógica doméstica das lealdades pessoais. A dificuldade histórica de separar a casa e o Estado, a família e a administração, o companheiro e o cidadão constitui um dos problemas centrais do livro (HOLANDA, 2016). Noventa anos depois, o homem cordial não desapareceu com a urbanização imaginada por Sérgio Buarque: ganhou perfil nas redes sociais, grupo de WhatsApp e um candidato para chamar de seu. A política brasileira continua sendo conduzida como reunião de família — com afetos absolutos, ressentimentos antigos e a suspeita permanente de que qualquer discordância seja uma forma de traição.

Luiz Werneck Vianna oferece uma chave especialmente fecunda para atualizar essa leitura. Em ‘Caminhos e descaminhos da revolução passiva à brasileira’, Werneck recupera justamente o capítulo ‘Nossa revolução’ para demonstrar que as transformações brasileiras raramente ocorreram mediante rupturas completas. Entre nós, o moderno não elimina o tradicional: negocia com ele, acomoda-o e, não raro, oferece-lhe um cargo no novo governo. A modernização brasileira seria, assim, uma longa revolução passiva, movimento no qual conservação e mudança caminham juntas, embora a primeira costume escolher o ritmo da caminhada (WERNECK VIANNA, 1996). Essa perspectiva impede que Raízes do Brasil seja lido como inventário fatalista de defeitos nacionais. O passado ibérico não é uma condenação biológica, assim como o americanismo não representa uma passagem automática para a modernidade. O país muda, porém carrega consigo os materiais da velha ordem, reorganizados sob novas instituições. Digitalizamos o favor, profissionalizamos o personalismo e substituímos o velho cabo eleitoral pelo influenciador; finalmente chegamos ao futuro, mas fizemos questão de levar o passado na bagagem.
A tensão política brasileira de 2026 confirma a atualidade dessa dialética. De um lado, uma direita autoritária transforma a pátria em propriedade particular, a religião em cabo eleitoral e a liberdade em salvo-conduto para agredir a própria democracia. De outro, setores da esquerda ainda confundem hegemonia com a capacidade de falar apenas para os já convencidos, como se a política pudesse ser substituída por uma assembleia permanente na qual todos discursam e ninguém precisa persuadir o país real. Entre ambos, sobrevivem instituições frequentemente tratadas como obstáculos quando deveriam constituir o terreno comum da disputa democrática. Sérgio Buarque ajuda a compreender por que o brasileiro procura no presidente, no juiz, no pastor ou no militar a figura familiar do protetor, enquanto Werneck recorda que a democratização social não pode prescindir da democracia política, das alianças e da mediação institucional. O desafio não consiste em escolher entre a rua e o Estado, o conflito e o compromisso, a mudança e a institucionalidade, mas em fazer com que a energia democrática surgida na sociedade atravesse as instituições sem ser domesticada por elas. Política não é a arte de conservar a pureza; é o trabalho, sempre imperfeito, de transformar interesses particulares em direção coletiva.
Dito isso, comemorar os noventa anos de Raízes do Brasil deveria significar algo mais do que organizar seminários para especialistas que citarão outros especialistas diante de uma plateia também especializada. O PT, sobretudo, poderia reencontrar um de seus fundadores, apresentando-o às juventudes partidárias, aos núcleos de formação e às novas militâncias não como uma relíquia acadêmica, mas como um interlocutor incômodo para compreender o personalismo, o patrimonialismo, a democracia e os limites de uma política movida somente pela paixão. Um partido criado para aproximar trabalhadores e vida pública não deveria permitir que Sérgio Buarque sobrevivesse apenas como nome de arquivo. Recuperá-lo seria também reconhecer que a democracia exige instituições, educação política, capacidade de diálogo e uma cultura comum que ultrapasse a soma das identidades particulares. Aos noventa anos, Raízes do Brasil continua perguntando se seremos capazes de construir uma sociedade de cidadãos ou se permaneceremos uma reunião de famílias políticas disputando o direito de chamar o Estado de casa. As raízes não precisam determinar o destino, mas ignorá-las — especialmente enquanto se comemora a própria árvore — é uma maneira bastante cordial de continuar preso a elas.
Referências
HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil: edição crítica. Organização de Pedro Meira Monteiro e Lilia Moritz Schwarcz. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.
WERNECK VIANNA, Luiz. Caminhos e descaminhos da revolução passiva à brasileira. Dados — Revista de Ciências Sociais, Rio de Janeiro, v. 39, n. 3, 1996. DOI: 10.1590/S0011-52581996000300004.
FUNDAÇÃO PERSEU ABRAMO. Sérgio Buarque de Holanda: 120 anos. São Paulo, 11 jul. 2022. Disponível em: https://fpabramo.org.br/evento/sergio-buarque-de-holanda-120-anos/. Acesso em: 9 set. 2026.
Pablo Spinelli é Doutorando em Ciência Política (UNIRIO), Mestre em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade (UFRRJ) e professor de História na educação básica.



