Dedicado ao amigo Ricardo, que ria no cinema vendo o moinho.
Trinta anos depois, Fargo (1996), dos irmãos Joel e Ethan Coen, permanece soterrado naquela neve excessivamente branca que, longe de purificar os homens, apenas torna mais visíveis as manchas de sangue deixadas por suas escolhas. Jerry Lundegaard (William H. Macy), vendedor de automóveis, marido submisso e pequeno empreendedor de grandes desastres, organiza o sequestro da própria esposa para arrancar dinheiro do sogro. Não deseja conquistar o mundo: quer apenas resolver rapidamente seus problemas financeiros. É justamente aí que mora o perigo. As democracias raramente são destruídas somente por grandes vilões; frequentemente começam a apodrecer pelas mãos de homens aparentemente comuns, convencidos de que uma pequena fraude, uma mentira provisória ou um sequestro familiar de consequências supostamente controláveis seriam apenas atalhos legítimos para a felicidade.
Alexis de Tocqueville talvez reconhecesse em Jerry a caricatura do interesse mal compreendido. Para o pensador francês, o interesse bem compreendido não exige que o cidadão se transforme em santo – o que seria pedir demais aos homens e, sobretudo, aos candidatos -, mas que perceba que sua prosperidade depende da preservação de regras, vínculos e instituições compartilhadas. Jerry, ao contrário, imagina que o bem particular pode ser separado do bem comum: deseja o dinheiro do sogro, mas sem enfrentar o sogro; quer salvar o casamento, mas sequestrando a esposa; pretende conservar sua respeitabilidade, mas contratando criminosos. Em Fargo, cada tentativa de vantagem individual produz uma desvantagem coletiva ainda maior. A esperteza, quando desligada da responsabilidade, transforma-se naquela forma particularmente moderna de estupidez que se considera inteligência.
No centro dessa geleira moral está Marge Gunderson (Frances McDormand), policial, grávida e casada com um homem cuja grande ambição é ver sua pintura estampada num selo postal. Os Coen não precisam transformá-la numa heroína masculina vestida de mulher. Marge investiga, interroga, dirige, sente enjoo, come, volta para casa e conversa com o marido. Sua autoridade nasce da competência, não da brutalidade; da atenção aos detalhes, não da necessidade de humilhar os outros. Enquanto os homens do filme confundem poder com dinheiro, armas e capacidade de impor medo, Marge representa uma modernidade na qual a mulher não precisa abandonar o cuidado para ocupar o espaço público. Pelo contrário: é justamente sua capacidade de reconhecer o outro como pessoa – e não como obstáculo, mercadoria ou cadáver incômodo – que lhe permite compreender o crime.
É nesse ponto que a célebre máquina de triturar madeira adquire uma dimensão quase polanyiana. Karl Polanyi chamou de ‘moinho satânico’ o mecanismo de uma sociedade que submete o trabalho, a natureza e as relações humanas à lógica de um mercado pretensamente autorregulado. Em Fargo, Carl Showalter termina literalmente triturado pelo comparsa Gaear Grimsrud, como se os Coen convertessem a metáfora em imagem: depois de reduzirem casamento, amizade, confiança e vida humana a instrumentos de ganho, os personagens acabam também transformados em matéria descartável. Não é a existência do mercado que produz o moinho, mas a pretensão de que tudo tenha preço e nada possua valor. Quando até a esposa pode ser contabilizada como investimento e o assassinato aparece como custo operacional, o capitalismo deixa de ser uma forma de organizar a economia e passa a desorganizar a sociedade.
Por fim, mas não menos importante, Fargo oferece uma pergunta incômoda para as eleições brasileiras de 2026: escolheremos novamente os vendedores de atalhos ou teremos a serenidade de Marge para observar os detalhes? O interesse bem compreendido recomenda desconfiar tanto dos salvadores da pátria quanto dos empreendedores do ressentimento, especializados em converter medo em voto e indignação em negócio. Uma democracia não se reconstrói pela fabricação permanente de inimigos, mas pela recuperação da confiança, da proteção social, das instituições e de um projeto capaz de convencer o cidadão de que ninguém prospera duradouramente numa comunidade triturada. Entre Jerry e Marge, 2026 precisará escolher mais do que governantes: deverá decidir se o Brasil continuará alimentando o moinho satânico ou se finalmente terá coragem de desligar a máquina.
Pablo Spinelli é é Doutorando em Ciência Política (UNIRIO), Mestre em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade (UFRRJ) e professor de História na educação básica.




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Espetacular.