Resenha: François Dubet. O desprezo: Como o sentimento de humilhação e falta de reconhecimento está alimentando o ressentimento, o populismo e a crise das democracias. Tradução de Flávia Falleiros. Primeira Edição. São Paulo, Vestígio: 2026. 136 págs.
François Dubet alerta que o desprezo – aquela emoção que esmaga o clima e muitas vezes é confundida com vergonha e/ou indignação – tornou-se o combustível emocional coletivo da paixão política populista nas democracias contemporâneas. O sociólogo francês, professor emérito da Universidade de Bordeaux e ex-diretor de estudos da École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS), desenvolve esta tese, originalmente publicada pela Seuil em setembro de 2025 e publicado entre nós pela Vestígio nesse 2026.
A tese do livro é tão simples quanto perturbadora: todos nós, em algum momento, desprezamos e somos desprezados. Os pobres desprezam as elites porque lhes dão lições do pedestal sem resolver seus problemas diários. Os setores dominantes – e não poucos progressistas – desprezam aqueles que, aos seus olhos, incorporam a ignorância e/ou o conservadorismo.
Professores, médicos e pesquisadores se sentem ignorados por uma sociedade que não os trata mais com deferência. E entre os setores populares, há aqueles que direcionam sua hostilidade contra aqueles que recebem assistência pública e/ou contra estrangeiros que, segundo eles, contestam seu trabalho. O desprezo flutua, afeta todos e não reconhece os de cima nem os de baixo.
Dubet explica que esse sentimento não é novo, mas o distanciamento pandêmico e a ausência de educação na proximidade pós-pandêmica mudou radicalmente sua natureza. Algumas décadas atrás, o desprezo era uma experiência coletiva inscrita em um sistema social, como ilustrou Talcott Parsons (1902-1979). Hoje, as pessoas dizem: eu sou desprezada. Ninguém se preocupa comigo. Essa é a mudança.
A velha consciência de pertencimento social — que fornecia identidade coletiva e protegia a dignidade do indivíduo — se dissolveu, e em seu lugar proliferam experiências singulares de humilhação que não encontram canal político.
Dubet traça uma linha direta entre essa acumulação de queixas e a ascensão do populismo. Donald Trump e os líderes da extrema-direita na Europa e além mobilizam permanentemente a imagem de um povo desprezado por seus inimigos: as elites, os especialistas, os estrangeiros, os assistidos, os ricos.
A lógica descrita pelo sociólogo é circular e autorreferenciada: só se liberta do sentimento de ser desprezado enquanto despreza a si mesmo. Os líderes populistas falam em nome dos desprezados, ainda que ele ou ela não sejam.
Esse mecanismo é exatamente o que a extrema-direita conseguiu explorar de forma mais eficaz: eles aproveitam o ódio ao sistema para alimentar a liderança autoritária. O que o livro oferece, nesse sentido, é um ângulo analítico para trabalhar sobre a própria perplexidade diante de fenômenos políticos que não são explicáveis pelos recursos analíticos usuais.
A novidade do argumento de Dubet não está em apontar a existência do desprezo, mas em mostrar como ele foi diversificado. Ela não se circunscreve mais apenas da posição social, mas pode surgir do trabalho, renda, sexo, sexualidade, etnia, nível educacional e/ou local de residência. Até mesmo as maiorias podem se sentir discriminadas quando deixam de ser a norma sexual, nacional e/ou social à medida que se dá o reconhecimento das minorias. Dubet atribui a essa dinâmica a hostilidade em relação a cultura woke: no fundo, é o medo de ser o próximo a ser desprezado.

Um dos núcleos da análise é a relação entre mérito e injustiça percebida. O ideal de igualdade de oportunidades – segundo o qual cada pessoa deveria poder acessar qualquer posição social com base em seu mérito – substituiu a antiga noção de justiça baseada na redução das desigualdades. Mas essa substituição tem um custo: quando o sistema proclama que todos começam do mesmo ponto, falhas deixam de ser estruturais e se tornam da pessoais.
As consequências políticas dessa dinâmica são visíveis nas urnas. Existe uma fratura, insiste Dubet, que não é exclusivamente francesa e Ocidental: ela atravessa as democracias e reflete uma profunda reconfiguração dos alinhamentos políticos, enraizada em como as sociedades produzem e distribuem o reconhecimento.
O livro também aborda a experiência do desprezo em profissões que historicamente gozavam de referenciamento social. Professores, médicos e pesquisadores hoje se sentem insensíveis, apesar de pesquisas mostrarem que seu prestígio social permanece relativamente inalterado e alto. Dubet atribui esse paradoxo ao fim do monopólio do mérito que essas profissões exerciam sobre o conhecimento e os valores.
Antes mesmo de entrar em sua sala de aula, o professor incorporava valores considerados sagrados, especialmente quando diplomas eram raros. Esse mundo não existe mais. Hoje, estudantes, pais e usuários têm uma opinião, o que introduz tensões sem precedentes na relação entre profissionais (os peritos e o seu sistema como ilustrou Anthony Giddens) e sociedade.
O conhecimento não é mais patrimônio exclusivo daqueles que o certificam: ele circula em redes, na mídia, em plataformas. E essa democratização da crítica gera naqueles que antes detinham esse monopólio um sentimento de perda que é experimentado, subjetivamente, como desprezo.
O que distingue o desprezo de outras formas de emoção coletiva é que não se esgota em condições materiais. Quando misturada com vergonha e indignação por ser discriminado, ela opera como uma emoção que esmaga o clima e que muitas vezes tende a ficar oculta.
O desprezo funciona como uma corrente: quem o recebe pode, por sua vez, direcioná-lo para os outros. Os brancos pobres que votam em Trump, ou em seus equivalentes na Europa, não se sentem explorados. Eles se sentem desprezados e frequentemente direcionam esse desprezo para minorias que, percebem, recebem mais atenção do que eles.
Dubet recupera Tocqueville (1805-1859) para explicar o mecanismo subjacente: em sociedades que se proclamam igualitárias, as desigualdades tornam-se insuportáveis justamente porque contradizem seu fundamento. O ressentimento cresce não quando as condições pioram em termos absolutos, mas quando a distância entre o ideal proclamado e a experiência vivida se torna aparente.
Diante desse diagnóstico, o sociólogo propõe três principais linhas de ação: fortalecer instituições que reconhecem múltiplas formas de mérito e não apenas a educacional, priorizar o apoio aos setores mais vulneráveis em vez de concentrar esforços naqueles que já estão próximos ao topo, e mobilizar associações, sindicatos e comunidades profissionais fora da esfera estritamente formal. Dito de forma clara: uma sociedade que reconhece várias formas de mérito é mais justa do que uma que reconhece apenas uma.
O desprezo surge em um momento em que o fenômeno que ele descreve — ressentimento como paixão política, a fragmentação, a sensação generalizada de ignorância — atravessa visivelmente as democracias.
9 de setembro de 2026
Ricardo Marinho é membro da Comissão Própria de Avaliação (CPA) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Representante dos Professores no Conselho Diretor da Associação dos Empregados de Nível Universitário da CEDAE (ASEAC) e professor da UniverCEDAE, da Faculdade Unyleya e da Teia de Saberes.



