Visões da desigualdade: Da Revolução Francesa até o fim da Guerra Fria, por Ricardo Marinho

Obra resenhada: Milanović, Branko. Visões da desigualdade: Da Revolução Francesa até o fim da Guerra Fria. São Paulo: Todavia, 2025. 352 págs.

 

No início da década de 1980, após ter se mudado da Grã-Bretanha para os EUA, Angus Deaton sugeriu um artigo para uma palestra a convite sobre os efeitos da desigualdade em diferentes sistemas tributários. Para sua proposta recebeu a seguinte resposta: “um problema social totalmente desinteressante”, e junto dela veio o pedido para que o tema fosse alterado. Essa breve história se encontra no seu último livro de 2023 e sem previsão de tradução entre nós. Ocorre que ela ilustra a forma como a desigualdade entra e sai de foco.

A obra de Milanović possui uma natureza bastante instigante como reconhece Deaton na contracapa da nossa edição ora resenhada. Dira ele: “Fascinante e surpreendente, este livro oferece uma nova visão de figuras icónicas, como Smith e Marx, e apresenta perspectivas inesperadas sobre suas obras. Milanović demonstra que os escritos dos séculos passados têm muito a nos ensinar sobre desigualdade, classe e poder. Um livro extremamente importante.”

Assim, a leitura que Milanović faz dos clássicos – Quesnay, Smith, Ricardo, Marx, Pareto e Kuznets – nos lembra como as perguntas que fazemos (e as que não fazemos) estão intimamente ligadas não apenas às preocupações do momento, mas também às ferramentas disponíveis para compreender o mundo.

Em Visões da desigualdade: Da Revolução Francesa até o fim da Guerra Fria, Milanović argumenta que reconhecer a história do conhecimento sobre desigualdade nos ajudará a compreender nossos vieses atuais (Milanovic 2025, Prólogo). Essa é uma importante correção às correntes na história da economia e do pensamento econômico que oferecem uma visão whig como diria E. P. Thompson (1924-1993) da disciplina como um suposto progresso rumo a uma maior pureza metodológica que John Maynard Keynes (1883-1946) logo obliterou. Milanović demonstra sensibilidade ao contexto e destaca contrastes e semelhanças interessantes nas abordagens de seus personagens. Contudo, embora Milanović se baseie diretamente em seus escritos, seu diálogo com a literatura histórica mais ampla é mais restrito. Por vezes, isso resulta na ausência de conversas produtivas com pesquisas recentes sobre o próprio período histórico do livro que vai da Revolução Francesa até o fim da Guerra Fria. Mais significativamente, a decisão de construir Visões da desigualdade, em torno das figuras reforça seus lugares como grandes intérpretes em seus tempos, o que os associam aos debates contemporâneos de uma forma heurística, o que reforça os apontamentos de Milanović para a importância do contexto. A contextualização é frequentemente especulativa, especialmente quando Milanović utiliza dados compilados pela economia histórica posterior para reconstruir o debate da desigualdade na época de cada autor. Dado que esses dados não estavam disponíveis para eles, é um exercício complexo para que o mesmo ofereça alguma informação contextual, especialmente para os períodos mais antigos.

Como Milanović admite prontamente, existiram muitas outras visões da desigualdade entre os séculos XVIII e XX. Algumas são bem conhecidas: Rousseau, Condorcet, ou, mais tarde, os “economistas morais” e no início do século XX, como R. H. Tawney (1880-1962). Em extremos opostos do espectro político, Hugh Dalton e Corrado Gini (ambos mencionados) também foram influentes na formação da perspectiva da discussão sobre a desigualdade. Milanović justifica sua seleção exigindo três elementos: primeiro, uma narrativa sobre como a desigualdade é produzida; segundo, uma teoria que formalize os mecanismos que produzem a desigualdade; e terceiro, uma preocupação com as evidências. Milanović reconhece que este último aspecto está pouco presente no seu elenco e admite que os critérios poderiam ter levado à inclusão de outros, como os teóricos da dependência tal como Theotônio dos Santos (1936-2018) e tantos outros, mas, nessa hipótese, a ausência de um cânone parece ter limitado sua decisão (Milanovic 2023, Epilogo: O novo começo).

Mas todo livro precisa fazer escolhas, e as de Visões da Desigualdade permitem destacar a longa história do debate entre bem-estar social e eficiência, que divide o elenco escolhido. Como Milanović aponta, Marx não se preocupava particularmente com a desigualdade, que consideravam inevitável sob o capitalismo.

Já a análise de Milanović vê Smith e Kuznets sob uma luz diferente, ainda preocupada com a eficiência, mas dando maior peso ao bem-estar geral. Smith avaliava o sucesso de uma sociedade pelo bem-estar. O perigo, argumentava Smith, residia nas tentativas dos capitalistas de obter lucros por meio da renda, o que resultaria em maior desigualdade e menor bem-estar geral. Quase dois séculos depois, Simon Kuznets fez coro com Smith, acrescentando equidade à eficiência como critérios para avaliar a distribuição de renda. A equidade exigida, a não discriminação e a adequação estão muito próximas das condições de decência de Smith. Como Milanović demonstra, a hipótese de Kuznet era mais sutil do que um otimismo panglossiano de que as desigualdades impulsionadas pela modernização inevitavelmente se estabilizariam.

Segundo Milanović, apesar das contribuições de Kuznet, o estudo da desigualdade entrou em um longo declínio durante a Guerra Fria. Por que se preocupar com “um problema social totalmente desinteressante” e que parecia estar desaparecendo? Milanović destaca o papel do que chama de fatores “subjetivos”, ou seja, ideias e política. Além disso, Milanović aponta para um padrão de financiamento de pesquisas econômicas enviesada, que vai desde o apoio dado pelas Câmaras de Comércio dos EUA à Sociedade Mont Pèlerin até o surgimento do Instituto Cato na década de 1970.

Pode-se argumentar que isso minimiza outras questões relacionadas a desigualdade, incluindo o comércio desigual ou a exploração de recursos naturais e mão de obra humana, que, sem dúvida, contribuem para a criação e reprodução de desigualdades em várias partes do globo, algo que Milanović destaca em seu livro.

A análise de Milanović aprofunda a política da desigualdade, mostrando-se o tema nuclear da sua conclusão. Ele observa a influência da Escola de Chicago na economia norte-americana, com sua ênfase na eficiência, mas sua perspectiva o leva a uma avaliação mais positiva das contribuições de outros profissionais como Amartya Sen que mantêm a desigualdade como um tema relevante. Assim Milanović atribui o retorno da desigualdade como uma questão política atual dado o crescente volume de informação sobre as disparidades detectadas. E aqui talvez resida o ponto cego do livro que contribui muito para colocar a economia em diálogo com a história, a política e a sociologia: embora a Grande Crise iniciada em 2008 (na verdade nessa primeira década do século XXI) até esses anos da covid longa são de fato o contexto em que a política da desigualdade voltou à tona, e há muito mais a ser desenvolvido sobre o papel da política, incluindo os movimentos democráticos e republicanos.

24 de dezembro de 2025

 

Ricardo Marinho é Presidente do Conselho Deliberativo da CEDAE Saúde e professor da Faculdade Unyleya, da UniverCEDAE e da Teia de Saberes.

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1 Comentário

  • BlancoBlanco

    A resenha estimula a leitura do livro pois aponta a relevância do tema, muito em voga no cenário atual em que vemos a brutal concentração de renda e precarização das relações de trabalho.

Comentários

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