União, Trabalho e Civilização Brasileira, por Ricardo Marinho

Nos debates políticos e eleitorais, o termo social-democracia é frequentemente repetido, geralmente em um sentido positivo, em quase todo o espectro político da civilização brasileira. Quase sempre foi assim. Em certos espectros da geografia política, entretanto, já foi um insulto, sinônimo de ideologia pusilanimidade. Hoje, é usado favoravelmente pela direita democrática, pelo centro político democrático, e até aqui o Governo Federal nascido nas eleições em 2022, admitindo ou não, pelo menos em certo sentido, que seja uma gestão social-democrata. Parece ter se tornado um certificado de boa conduta, de moderação, de gentileza, capaz de apagar os pecados de destemperos passados e um prenúncio de cordialidade futura, como vimos a pouco entre Lula e Trump.

O profundo mistério reside em porque algo tão valorizado está ausente das discussões político-programática eleitoral e governamental, apesar de seu imbricamento com o espírito da coalizão que governou o Brasil desde 1994 até 2010, o que gerou os melhores anos de nossa história recente. É chegada a hora de explicar que a social-democracia é um estilo que nos cai bem pois representa politicamente, economicamente e socialmente com uma longa história, com sucessos e dissabores, que tem suas raízes no século XIX, que desempenhou um papel importante no século XX e que, espero, possa persistir colaborando nas travessias no século XXI, como agora nessa chegada anacrônica e in totum do massacre de Canudos (1896-1897) às nossas Cidades e Metrópoles.

A social-democracia surgiu no início do século XX como um grupo no seio do movimento operário, que seguia as ideias da Associação Internacional dos Trabalhadores.

Em 1899, Eduard Bernstein (1850-1932), escreveu um ensaio, no qual discute em profundidade um caminho reformista para o estado de coisas sistêmico, que reconhece a democracia liberal como um valor, através do qual se pode alcançar um maior bem-estar comum, excluindo a violência e severidades.

Edição de 2017 (Martin Claret) de Os Sertões, de Euclides da Cunha.

 

Essa linha de pensamento já tinha suas raízes em John Stuart Mill (1806-1873) e na Sociedade Fabiana britânica, que contava com o intelectual irlandês George Bernard Shaw (1856-1950) entre seus líderes. Mais tarde, ela se desenvolveria com diferentes nuances por toda a Europa, com os liberais Carlo Rosselli (1899-1937) e Norberto Bobbio (1909-2004) na Itália.

A social-democracia teve uma trajetória difícil, pois precisou confrontar os equívocos revolucionários na Rússia e o fascismo e o nazismo generalizados que imperavam naquela época em quase toda a Europa.

Somente após a Segunda Guerra Mundial a social-democracia pôde desempenhar um papel planetário significativo, tornando-se uma força governante que combinou com sucesso crescimento econômico e altos níveis de igualdade nos países que liderou, particularmente nos países nórdicos, como a Suécia, que, a partir de 1932, transformou uma nação então empobrecida em um país de notável desenvolvimento. Isso foi alcançado por meio de reformas graduais, combinando gestão pública estatal com capacidade estratégica e coordenação das economias de mercado altamente produtivas, que durante anos geraram Estados de bem-estar social bem-sucedidos.

Por outro lado, o sistema democrático e a expansão dos direitos e deveres dos cidadãos desenvolveram-se sem interrupção. Países historicamente à margem, sujeitos a ditaduras, como Espanha, Portugal e Grécia, integraram-se à Europa, com a social-democracia desempenhando um papel significativo nesse processo durante as décadas de 1970 e 1980.

Com a transição em curso da sociedade industrial para a sociedade da informação, ocorreu uma mudança profunda e ambivalente na economia, sociedade e política globais. O desenvolvimento instrumental avançou rapidamente, mas os aspectos institucionais, normativos, regulatórios e civilizacionais ficaram para trás como indicaram os Prêmios Nobel de Economia Douglass North (1920-2015) e Joel Mokyr. O respeito às regras foi suplantado pela competição desenfreada e, como num revival do imperialismo nesses últimos anos, as ameaças, a força e a predação se expandiram. Isso não favoreceu a democracia, nem as instituições democráticas, sua normatividade regulatória e civilizacional. Irresponsáveis floresceram por toda parte, juntamente com populistas autoritários e lutas territoriais que desencadearam guerras que continuam até hoje. Em suma, estabeleceu-se um mundo belicoso no qual os valores da social-democracia são difíceis de expressar e onde o extremismo e o fanatismo, em todos os espectros da geografia política, prosperam.

O mal ronda a terra, de Tony Judt (Objetiva, 2011).

 

Na experiência de 40 anos de democracia essa política compôs todas as Frentes Democráticas, desde os momentos de liderança a transição da ditadura para a democracia, em meio a chuvas e tempestades, que muitas vezes frearam nosso ímpeto. Embora nem tudo tenha desmoronado, ficamos bastante abalados. Nossa abordagem social-democrata, apesar de suas conquistas, ainda era frágil; muito ainda precisava ser feito, e ela sobrevive no fio da navalha.

Hoje, ainda restam suspiros de nostalgia, e aqueles que lutam por sua destruição absoluta tendem a fingir ignorância. Levará muito tempo para a reconstrução de uma força com essa orientação. Em nossa era, não faz sentido repensar a social-democracia tal como se constituiu. O tipo de andamento incorporado pela social-democracia histórica e/ou estruturas políticas similares adquirirá novas características no mundo da cointeligência, cujos contornos mal vislumbramos, mas que devem conservar seus elementos fundamentais: os valores que ainda são plenamente válidos, sua metodologia democrática, suas regras liberais democráticas e sua abordagem gradativa para a implementação de mudanças sem polarização e/ou rupturas.

Como disse o grande historiador britânico Tony Judt (1948-2010) em O mal ronda a terra (2011): “A social-democracia não representa um futuro ideal; tampouco representa um passado ideal. Mas, das opções disponíveis hoje em dia, é a melhor que temos ao nosso alcance.”

Nessa hora em que recaímos, quase sem sentir, nas malhas da nossa história, e a ironia está em que isso nos ocorre quando tudo indicava que estávamos prontos para nos liberar dela. Mas isso é também uma possibilidade para a nossa social-democracia para a sua plena imersão na temporalidade brasileira que é mais a de simultâneos e não a de sucessivos.

Daí que é de bom tom parafrasear Os Sertões, (1902), quando advertiu o primeiro-tenente tapuia presbiteriano que em vez de trágicas intervenções belicosas, precisamos é de civilidade tenaz, contínua e permanente, visando trazer para o nosso tempo e incorporar para a nossa existência democrática aqueles compatriotas largados a rudeza.

2 de novembro de 2025

 

Ricardo Marinho é Presidente do Conselho Deliberativo da CEDAE Saúde e professor da Faculdade Unyleya, da UniverCEDAE e da Teia de Saberes.

 

Imagem da capa: Igreja de Bom Jesus em 1897, no arraial de Belo Monte, já em ruínas devido à guerra.

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8 Comentários

  • José Bezerra

    A social-democracia virá naturalmente quando estivermos civilizados.

  • Débora Barcellos

    Leitura ótima, gostei!!

  • Ana Clara Ciraldo

    Muito relevante, gostei!!

  • Ana Clara Ciraldo

    O texto é muito relevante!!

  • Ana Clara Ciraldo

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  • Bruna Ciraldo Simões

    O texto apresentado é extremamente relevante, gostei!!

  • Bruna Ciraldo Simões

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  • Bruna Ciraldo

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