Um simples acidente, por Ricardo Marinho

Filme resenhado: Foi apenas um acidente. Direção: Jafar Panahi. França; Luxemburgo; Irã, 2025.

 

Apesar do título, estamos diante do filme vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes de 2025. Desde a cena inicial, com um marido (Ebrahim Azizi) e sua esposa grávida dirigindo à noite por uma estrada de terra, estamos adentrando no roteiro do diretor iraniano. A filha do casal pula no banco de trás ao som de música pop e alta no rádio, formando uma singela viagem familiar que é interrompida pelo atropelamento fatal de um cachorro. Apesar da tristeza da filha pelo canino, a mãe projeta o ocorrido para um outro plano: o teológico. Ela atribui ao desígnio de Deus e a falta de postes de luz. “Foi Apenas um Acidente”, ela dirá à filha, que a retruca se afastando da fabulação. Mas, assim como as criaturas cujas vidas podem ser destruídas nestas vias de chão batido e sem urbanidade, por causa dessa desgraça suas vidas serão desviadas.

Vários quilômetros após o atropelamento, o carro quebra do lado de fora de uma modesta fábrica. Um funcionário desse estabelecimento se oferece para consertar o automóvel enquanto seu colega de trabalho Vahid (Vahid Mobasseri) conversa ao telefone em um quarto dos fundos. Antes de ver o motorista, Vahid ouve o arrastar e o rangido de uma perna protética. Sua expressão afável desaparece, e ele se esgueira para olhar melhor. Do seu ponto de observação, só vemos as pernas do motorista enquanto ele procura uma caixa de ferramentas. Quando pede ajuda, Vahid, escondido noutro cômodo, enfia o dedo na bochecha para mudar a voz. Vahid acredita que esse homem é Eghbal, um ex-integrante do regime autoritário teocrático que o torturou anos atrás na prisão.

Foi Apenas um Acidente, de Jafar Panahi, é um filme sobre cárceres, prisões políticas e não só, aquelas em que o tempo e a memória podem ser construídos para nós, e as chaves para a nossa libertação são difíceis de encontrar. Como você permanece humano quando sua humanidade foi definhada? Como não recorrer à luta com as ferramentas idênticas do seu algoz, mesmo quando parece que é tudo o que resta?

Essas são algumas das perguntas que Panahi faz aos seus personagens, que, com uma simples leitura, poderiam ser interpretados como versões dele. Por extensão, então, essas também podem ser interpretadas como perguntas que ele fez a si mesmo. Panahi foi preso pela primeira vez em 2010, por dois meses, sofrendo maus-tratos por parte de seus encarceradores e ouvindo ameaças contra os seus familiares. Quando finalmente foi libertado, foi colocado em prisão domiciliar e proibido de fazer filmes, proibição que ele segue desafiando até hoje.

Foi Apenas um Acidente toma forma organicamente quando Vahid decide agir. Ele rastreia o atropelador até uma oficina, onde o esbarra propositalmente com seu carro, o sequestra na rua e dirige até o deserto, onde cava uma cova com a intenção de enterrá-lo vivo. Quando o homem protesta que não pode ser Perna de Pau porque suas cicatrizes são recentes, a dúvida invade a mente de Vahid. Será que ele realmente está com o homem certo? Embora esse pensamento incomode Vahid, Panahi não deixa muita incerteza. Na cena de abertura, a filha menciona que ninguém pode ir até sua casa e que devem evitar os vizinhos. Essa manifestação da filha será reiterada noutra cena. No início do filme, Panahi também mergulha o rosto do motorista em uma luz vermelha intensa, um truque ao qual ele voltará a retornar, de uma forma que lembra Marnie: Confissões de uma Ladra (1964), de Alfred Hitchcock (1899-1980), outro filme que mistura trauma com memória.

O mistério do personagem, portanto, tem importâncias diversas para Panahi. Ele está muito mais interessado nas emoções que o seu ressurgimento tem sobre aquelas e aqueles que fez sofrer. Em vez de simplesmente matar um personagem passível de ser inocente, Vahid busca a confirmação a seu respeito. Um amigo o encaminha para uma fotógrafa chamada Shiva (Mariam Afshari), que também foi prisioneira política. Quando Vahid encontra Shiva, ela está justamente fazendo fotos de casamento para Ali (Madj Panahi) e Goli (Hadis Pakbaten), estes também ex-prisioneiros. Todos entraram na van de Vahid para procurar um outro ex-encarcerado, o temperamental Hamid (Mohamad Ali Elyasmehr). Como todos estavam vendados quando conheceram o Perna de Pau, a percepção deles sobre ele é sensorial: Vahid o identifica pelo som, Shiva pelo cheiro e Hamid tocando as cicatrizes do personagem. A invocação do sensorial indica que essas pessoas estão sendo governadas tanto pelo instinto e pela emoção quanto pela lógica, inspirando reações bruscas alimentadas pela raiva.

No entanto, Foi Apenas um Acidente não está na vingança. Na verdade, é surpreendentemente engraçado. Essa colorida coleção de personagens — um trabalhador, uma noiva e um noivo, um fotógrafo e um rapaz — todos juntos em um espaço minúsculo para que suas diferenças surjam e tomem forma enquanto enfrentam vários obstáculos. A van quebra, um nascimento acontece, subornos e desentendimentos levam a várias revelações. Embora parte do humor venha do roteiro espirituoso, as maravilhosas pitadas do editor Amir Etminan são igualmente maravilhosas.

Consequentemente, a sensação de espaço nessa imagem é diversa. Embora possa evocar comédia, também pode inspirar tensão. Porque há várias prisões neste filme: há a ampla caixa de ferramentas da van onde escondem o personagem que lembra Festim Diabólico (1948) também de Hitchcock, a própria van e o vasto deserto para onde o levam. O tratamento visual desses lugares por Panahi culmina no desabafo de Hamid no deserto — uma longa cena ininterrupta que alterna por três composições apenas panorâmicas — na qual ele se irrita com cada pessoa por ser um(a) observador(a), alguém disposto a apagar o passado e/ou por ser geralmente passivo. Cada uma representa as medidas que podemos tomar sob um regime autoritário repressivo, não apenas para sobreviver. Mas também para permanecer civilizado.

E assim, a questão nuclear de Foi Apenas um Acidente é se esses personagens recorrerão às mesmas táticas de tortura que lhes foram impostas e se tais meios realmente os ajudarão a superar seus respectivos traumas e esse regime. Cada representação luta com tanta abertura com o dilema moral de seu personagem que é fácil perceber o quão bem construída é cada atuação. Através do senso de ambiente do diretor de fotografia Amin Jafari, das mudanças ágeis de tom do roteiro e do elenco atento, ficamos fascinados desde o primeiro minuto até o fim de um thriller político intenso que funciona de forma silenciosa, mas com igual impacto. Assim, não há planos desperdiçados nem momentos desperdiçados neste filme, porque ele entende que o cinema é vida, imbuído do poder de redescobrir o passado sem autoritarismo teocrático, proteger o presente das infâmias e imaginar um futuro na democracia. Foi Apenas um Acidente está fazendo todas essas coisas ao mesmo tempo, por seus personagens e seu criador.

19 de janeiro de 2026

 

Ricardo Marinho é Presidente do Conselho Deliberativo da CEDAE Saúde e professor da Faculdade Unyleya, da UniverCEDAE e da Teia de Saberes.

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