Um hino à vida, por Ricardo Marinho

Livro resenhado: PELICOT, Gisèle com PERRIGNON, Judith. Um hino à vida: A vergonha precisa mudar de lado. Tradução de Julia da Rosa Simões. Primeira Edição. São Paulo, Companhia das Letras: 2026. 239 págs.

 

Como já é tradição, as ruas do mundo em todo dia 8 de março reúnem um mar de cidadãs e cidadãos cujas vidas diversas se desenrolam em uníssono ao ritmo de uma marcha, suas vozes entoando slogans em comum. Entre elas, um rosto, infelizmente infame, se destacava nas ruas de Paris: o de Gisèle Pelicot. Depois que o acaso revelou, em 2022, que ela havia sofrido mais de 51 estupros durante uma década nas mãos de vários facínoras, orquestrados por seu marido, o rosto dessa septuagenária se tornou um ícone da luta das mulheres contra a violência.

O livro em tela reúne suas memórias. Recentemente publicado em mais de 20 idiomas (Um hino à vida), Gisèle Guillou (ex-Pelicot) confessa, com a colaboração de Judith Perrignon – jornalista, ensaista e romancista que ajudou diversas figuras francesas a contarem suas histórias, como Marceline Loridan-Ivens (1928–2018), sobrevivente de Auschwitz – , com o mesmo tom comedido e assertivo que se testemunhou durante o julgamento de seus agressores, que sua transformação em um símbolo da luta das mulheres ocorreu quase à sua revelia. Na página 227 do capítulo final, de número 18, se evoca os seus 16 anos e a percepção dos protestos em França, onde se lê:

“Corria o ano de 1968. As mulheres lutavam coletivamente contra uma vida programada de antemão, lutavam pelo direito ao aborto, por suas liberdades. Eu as ouvia e as admirava, mas me sentia longe de tudo aquilo, não entendia aquela oposição entre homens e mulheres”.

Na sequência surgira a declaração, no entanto, de que não vai virar as costas para a luta das mulheres, embora a abrace à sua maneira:

“Pode ser que eu decepcione algumas militantes por não ser radical e continuar adepta de uma vida tradicional e tranquila. Mas testemunhei como, nos degraus do tribunal, elas transformaram toda a dor de um julgamento em gritos de liberdade, testemunhei a alegria e a raiva triunfarem sobre o silêncio, por isso fico feliz de poder oferecer minha história como exemplo e meu nome como bandeira.” (Pelicot, 2026, p. 227-228).

De fato, os caminhos da luta das mulheres e de Gisèle Guillou se cruzaram. Seu nome e sua história se tornaram simbólicos quando ela exigiu, contra todas as expectativas de sua família e advogados (e até mesmo de si mesma), um julgamento público para seus agressores. Por que ela fez isso? Gisèle Pelicot sofreu em sua própria história o julgamento social que a luta das mulheres denuncia, que as vítimas sofrem, independentemente de seu comportamento, idade e/ou status social. Como ela confidenciou, durante a preparação do julgamento, a frase – “A vergonha precisa mudar de lado” – não lhe saía da cabeça.

A Companhia das Letras, acreditando que Um hino à vida é uma contribuição importante para mudar a cultura societal, convidou mulheres influentes em suas áreas para um movimento em torno da principal frase acima deste livro. Quem primeiro empresta sua voz a Gisèle Guillou é a atriz e escritora Fernanda Torres, que recita trecho das páginas 185-186 do capítulo de número 15 que diz:

“Cheguei à praia. A brisa do mar sempre é marcante penetra mais fundo nos pulmões, nos expõe aos elementos, nos faz sentir pequenos, mas vivos. Senti na pele o quanto precisava do resto do mundo. Já não queria estar só. Tantos desconhecidos haviam me ajudado e me acolhido quando eu não tinha mais nada. Havia perdido o medo dos olhares, já não temia que as pessoas soubessem. A vergonha precisa mudar de lado. Essas palavras, que vinham se erguendo havia mais de uma década em apoio as mulheres vítimas de estupro e violência, eu as ouvi, e elas se instalaram como um refrão dentro da minha cabeça, eram pequenas lâminas afiadas que de repente aguçavam meu pensamento. Todos precisavam ver os 51 estupradores. Eles é que deveriam se curvar. Não eu.”

Quem lê as memórias de Gisèle Guillou não encontrará vergonha, nem raiva, muito menos sensacionalismo; encontrará, em vez disso, introspecção, resiliência, calma, empatia e alegria. Sim, a alegria de viver (como indica o título do livro em francês). Mesmo que o livro ainda carregue o sobrenome do seu ex-marido, Gisèle Pelicot não é mais Madame Pelicot. Ela é uma mulher que resgatou sua história, suas escolhas passadas e futuras, que reconstruiu seu lugar no mundo, redefiniu seus relacionamentos afetivos (inclusive com o seu passado), e expôs suas feridas para que outros não as infligissem a outrem. Suas memórias não santificam a família nem demonizam os homens. Não são um relato completamente íntimo nem um manifesto político. São simplesmente ela. A voz de alguém que transformou sua dor em luta. Bravo!

16 de março de 2026

 

Ricardo Marinho é Presidente do Conselho Deliberativo da CEDAE Saúde e professor da Faculdade Unyleya, da UniverCEDAE e da Teia de Saberes.

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