Como Aristóteles, Santo Tomás é portador de um enorme otimismo metafísico, já que a economia de seu sistema supõe a movimentação das coisas e criaturas para a perfeição e para Deus. Mas este otimismo não livra de defrontar-se com o problema de mal, ao qual ele oferecerá uma resposta parecida com a de Agostinho. Para ele, o mal não existe enquanto substância específica. Consiste, ao contrário, na carência de uma qualidade ou perfeição que a criatura deveria naturalmente possuir. Desubstancializado, o mal é nada, é pura carência, e sua causa seria a tendência ao não-ser. A luta contra o mal se define, consequentemente, como luta pela plenitude dos fins presentes na ordem natural, criada por Deus. Esta concepção tomista do mal circunscreve o campo para a ideia da liberdade humana. Supondo uma operação impositiva das causas segundas, o homem não teria a liberdade de se aperfeiçoar. Razão pela qual o tomismo desliza para a postulação de um movimento do homem como essencial para alcançar a sua perfeição, que só existe incluindo no seu conteúdo a sua liberdade. O elemento básico da liberdade, previsto neste reino das causas secundae da natureza humana, é a vontade. (Rubem Barboza Filho, Tradição e aritifício: Iberismo e barroco na formação americana, p. 225)
Encerrou o ano de 2025 com o desfecho da série Stranger Things, que foram cinco temporadas no contexto dos últimos anos da década de 80. Uma série que nos deixa com muitas possibilidades de reflexão sobre o legado de uma década na produção musical, mas que deixou o Estado de Bem Estar Social com fendas em sua estrutura e em condições sem reparação.
O domínio de uma “Mente coletiva” se transbordou para uma redefinição da noção de consenso como fator de dominação política. As chagas de uma sociedade que iria se abrir para o trumpismo três décadas depois se observa na frase de Henry/Vecna, de que seus “escolhidos” seriam os “mais fracos” e mais vulneráveis a serem manipulados em crenças sobre monstros a serem evitados.
Observemos no vilão o personagem com características de uma mente paranoica no qual muitas vezes nos chama a atenção de que a teoria política de Carl Schmitt, centrada na polarização entre “nós” e “eles”, moldou uma Guerra Fria sem Guerra Fria, ou seja, as polaridades na política que realimentam um pouco a produções cinematográficas de Terror como Anabelle (2014) e Anabelle 2: a criação do mal (2017) – anos que coincidem com a vitória dos Republicanos nas eleições legislativas de 2014 e o primeiro ano do mandato de Donald Trump.

Os desvarios do populismo na política durante a década de produção de Stranger Things (2016 até 2025) seriam o “mundo invertido” diante da crise dos canais democráticos em nosso século XXI. O heroísmo dos anos 80 é resgatado sem nostalgia, mas como uma demonstração de um legado de aprendizado para as novas gerações que, em cada escrutínio em países diversificados, se deixam influenciar por discursos antissistemas. As amizades on-line, sem aprofundar laços de interações sociais, criam eleitores alienados à percepção do que ocorre nas cidades. E ficamos a observar aqueles que aguardam uma “batalha final”, seja no Apocalipse ou nas urnas.
Quebrar o sistema como se fosse explodir o “mundo invertido” requer muito amadurecimento político e estar preparado para ouvir ou assistir longos episódios. Esse foi o ensinamento do roteiro dos últimos episódios de Stranger Things: reeducar o público a longas conexões e longas reflexões. A música outra vez é destacada como fundamental para a reflexão. E, digamos o mais importante: deixar ao espectador a importância do exercício da dúvida, como nos ensinou um pensador de terras germânicas muito preocupado com o tema do “canibalismo social”.
A pergunta da ação política em Stranger Things não é para onde ir após aquilo que achamos ser o desfecho. Mas devemos reconhecer que se trata de um novo começo de um problema que ainda está a se refazer. Então, a pergunta é “o que fazer?” diante de um jogo que as crianças (“as fracas”), às margens da década de 90, não saberiam como desenvolver. Os Yuppies estavam a moldar um estilo de vida que nos dias atuais observamos nos usos e abusos do termo empreendedorismo. Os Dereks cresceram e querem até ser Presidente da República, dependendo do “valor a combinar”. Portanto, Mike, com um otimismo da vontade próximo ao pensador Antonio Gramsci, nos faculta a acreditar numa possibilidade mais democrática não só para Eleven, mas para nossa humanidade mesmo na persistência de conflitos bélicos ou explorações de petrolíferas no continente africano.
Todavia, os desafios ainda estão diante de nós ao lidar com aqueles que querem um “palco” de visibilidade virtual, ao falar de “palcos” num Reveillon como se estivessem consumidos pela dicotomia de Schimitt. Os desvios do populismo comunitarista podem fazer emergir outros personagens malignos. Portanto, as próximas eleições legislativas norte-americanas (assim como a brasileira) devem contar com a intervenção e reinvenção das forças da tradição republicana e democrática.
Vagner Gomes é Docente em História na rede pública do Rio de Janeiro e doutorando no PPGCP-UNIRIO.



