Testemunhamos no primeiro quarto de século XXI um desfecho com um “mundo invertido” que tenciona a teoria da representação democrática. Segundo Bobbio, “o Estado liberal primeiro e o seu alargamento no Estado democrático depois contribuíram para emancipar a sociedade civil do sistema político.” (BOBBIO, O futuro da democracia, p. 48). Nos dizeres do pensador italiano, esse foi o processo em que o cidadão se movimentou por demandas dirigidas ao governo.
As origens da chamada crise da Democracia, com seus desdobramentos autocráticos, não é um consenso entre os especialistas na Ciência Política. Hipoteticamente, poderiam se encontrar na emergência de um modelo globalizante marcadamente neoliberal como numa “mente coletiva” sob o controle do personagem Vecna em Stranger Things. “Felizmente, uma breve reflexão mostra que o que é necessário para evitar a arbitrariedade no exercício de um determinado poder não é o consentimento expresso a esse poder, mas sim a possibilidade permanente de questioná-lo, de contestá-lo.” (Philip Petit, Republicanismo: Una teoría sobre la libertad y el gobierno, p. 91)
Não pudemos registrar todas nossas impressões da série Stranger Things (“O mistério de Stranger Things”, 8 de julho de 2022), porém retomamos nossas considerações sobre a fictícia Hawkins após a derrota eleitoral das forças governistas no Chile aonde a candidatura vitoriosa, em contestação ao crescimento da migração venezuelana, se beneficiou do nacionalismo uma vez que “fortalecimento de identidades locais pode ser visto na forte reação defensiva daqueles membros dos grupos étnicos dominantes que se sentem ameaçados pela presença de outras culturas.” (Stuart Hall, A identidade cultural na pós-modernidade, p. 85).
A série completa está no intervalo de 1985 a 1989. Foram os anos da redemocratização na América Latina e da abertura política na URSS (os soviéticos marcaram presença na terceira e na quarta temporadas) o que valida uma interpretação sobre as reflexões políticas dessa série sobre o tema da liberdade. “A própria liberdade, portanto, exigia um lugar onde as pessoas pudessem se reunir – a ágora, a praça ou a pólis, o espaço político propriamente dito”. (Hannah Arendt, Sobre a Revolução, p. 59). Nos episódios os moradores de Hawkins vivem a mutação de um espaço de convivência por um espaço de mercado, ou seja, a inauguração de um Shopping que serve como “disfarce” a presença soviética.
Nos capítulos finais da Guerra Fria, o ditador chileno Augusto Pinochet sofreu um atentado em 7 de setembro de 1986. O ataque, planejado pela Frente Patriótica Manuel Rodríguez (FPMR), que estava a romper com os comunistas chilenos, poderia ter adiado a transição democrática chilena que ganhou folego no plebiscito de 1988. Não podemos nos iludir, pois o SIM para Pinochet foi de 44% naquele momento. As eleições presidenciais e legislativas de 1989 foram ganhas por uma Frente Democrática com o nome de Concertação de Partidos pela Democracia que governou até 2010.

A gradual perda gradual da convivência se observa em Stranger Things nos jogos que isolam Derek da família. Os nossos jovens adolescentes heróis preferem andar de bicicleta pelas ruas da cidade que nessa temporada está cercada numa “quarentena” sob vigilância militar como estaria a sociedade chilena diante do “mal-estar” do debate sobre a Constituição adotada ao final do chamado “pinochetismo”. “É bastante óbvia a diferença entre uma Constituição que é ato de governo e a Constituição por meio da qual o povo constitui um governo.” (Hannah Arendt, Sobre a Revolução, p. 194).
Os “atalhos” das postulações populistas atraem as ameaças a localidades como Hawkins na ficção ou no Chile da realidade. Vecna emerge como um juiz que está julgar aquilo pelo que ele passou quando criança. Sua semelhança com Darth Vader é tamanha diante de um “exército de clones” de Demogorgon. Vecna é o “povo-juiz” aonde “votar e julgar constituem dois meios de intervir na organização da pólis.” (Pierre Rosanvallon, A contra democracia: a política na era da desconfiança, p. 259). Os eleitores chilenos assim têm feito desde que a “Nova Maioria” passou a oposição ao Governo de Sebastián Piñera (1949 – 2024) à medida que o “centro político” foi se definhando junto com declínio da Democracia Cristã local.
As posturas sobre a desqualificação de uma modelagem democrática estão a nos ameaçar como sinais desse “mundo invertido” que é um mitológico universo no reflexo de um espelho representativo. Então, nos rodopios de Foucault, lê-se que “se você define o tribunal popular como instância de normalização – eu preferia dizer: instância de elucidação política – a partir da qual as ações de justiça popular podem se integrar no conjunto da linha política do proletariado, estou de acordo.” (Michel Foucault, Microfísica do Poder, pp. 61-62).
Aprende-se no reconhecimento de uma derrota eleitoral e política que uma aliança precisa ser refundada sempre mesmo que “Derik Merdinha” seja incorporado como “Derik Gracinha”. As memórias que aparecem na série Stranger Things é nossa oportunidade de fazer a travessia aonde as dores e perdas de pessoas queridas nos possibilitam abrir nossas emoções para novos sujeitos políticos. Uma série que atravessou a pandemia da COVID 19 nos ensina a possibilidade de estar sempre ampliando as forças de alianças. Os chilenos, e também nós do campo democrático brasileiro, devemos reaprender a dialogar com o centro liberal na política da representação.
Vagner Gomes é doutorando do PPGCP-UNIRIO.




3 Comentários
Essa questão do centro enfraquecido é preocupante. Acho que quando falta diálogo, qualquer cenário fica complicado.(●__●)
Texto excepcional vagner, adorei o tema, faz a gente refletir. 🧠
genial!!!