Livro resenhado: Chang, Ha-Joon. Economia: modo de comer: Um economista voraz explica o mundo. Tradução de Cássio de Arantes Leite. São Paulo: Portfolio-Penguin, 2025. 286 págs.
Para Chef Gabi
Um livro a ser devorado: nunca essa ideia foi tão adequada! O professor Ha-Joon Chang, ex-consultor do Banco Mundial e das Nações Unidas, através de uma viagem venturosa a diferentes lugares e épocas para descobrir os vários alimentos servidos nas mesas de todo o mundo, expõe as principais questões da economia com excepcional capacidade de popularização.
Um professor que explica com simpatia aqueles assuntos reservados – erroneamente – a alguns poucos e nos acompanha em uma jornada curiosa e original onde começa a falar sobre um alimento e sua história e depois abre uma discussão sobre a economia e as várias engrenagens econômicas.
Cada capítulo tem o nome de um ingrediente (Alho, Bolota, Quiabo, Coco, Anchova, Camarão, Macarrão, Cenoura, Carne, Banana, Coca-Cola, Centeio, Frango, Pimenta, Limão, Especiarias, Morango, Chocolate) seguido de uma pequena receita da qual Chang conta curiosidades de vários tipos, lhe-oferecendo a apetitosa oportunidade de falar sobre economia. Um alimento, uma questão econômica: uma associação original, que funciona.
O truque lembra a imagem evocada pelo poeta latino Lucrécio (94 a.C.-50 a.C.) em Sobre a Natureza das Coisas (De rerum natura) que associou a poesia ao mel que é borrifado na borda do copo para envolver o paciente recalcitrante a beber o remédio amargo, ou seja, a filosofia de Epicuro (341 a.C.-271 ou 270 a.C.). Logo, Chang usa sua maravilhosa capacidade de um contador de histórias, para falar e refletir sobre as principais questões econômicas.
A intenção de Chang é clara desde o início: quando falamos de economia, falamos também de relações entre Estados e, como nas relações humanas, devemos banir qualquer preconceito cultural, gastronômico e/ou político.
A miragem da economia perfeita não existe. Através da metáfora da gastronomia, onde um ingrediente pode ficar bem em uma receita, mas não em outra, descobrimos que um alimento que sempre pensamos em combinar com sobremesa também pode ser comido salgado, o livro nos faz entender o mesmo na economia pois é preciso ter horizontes amplos:
A ignorância e, às vezes, a má-fé nos levam a empregar estereótipos culturais negativos de culturas “estrangeiras”. Enfatizamos apenas as características de uma cultura que incomoda a alguns e atribuímos as eventuais dificuldades socioeconômicas enfrentadas pelos países a sua cultura. Mas, com isso, deixamos de perceber as reais causas de seus problemas. (Chang, 2025, p. 38).
Da ampla gama de temas abordados no livro, todos muito interessantes e escritos em uma linguagem acessível, sente-se um constrangimento sincero em escolher as passagens mais significativas, pois cada capítulo sempre traz consigo descobertas interessantes, reflexões importantes e curiosidades deliciosas.
A importância da economia na vida de cada cidadão é muito mais decisiva do que se poderia pensar: é redutor pensar apenas em questões como renda, trabalho e pensões. As teorias econômicas influenciam as políticas governamentais em relação aos gastos do governo, impostos que afetam salários, hipotecas e empréstimos. O professor Chang vai além e dá vivas a marinada.

É impossível não reconhecer a importância da economia e da comida na vida cotidiana, no estudo do comportamento humano, nas relações entre os Estados, nas escolhas governamentais. Chang nos apresenta essa maravilhosa “toca do coelho” – palavras dele – onde, por exemplo, por trás da simples reflexão sobre o equívoco do fechamento cultural que afeta a culinária, ele passa a falar sobre intervenção estatal na economia.
Chang explica como foi importante a intervenção do governo no “milagre econômico” do Japão, que em poucas décadas após Plano Colombo (1951), conseguiu se tornar líder mundial em alguns setores, como automotivo e eletrônico, a ponto de se estabelecer como uma potência mundial real. O Japão era, nos anos 1950, líder mundial na produção e exportação de seda – e parece que os próprios japoneses também comiam as pupas, uma espécie de larva pós-embrionária, do bicho-da-seda, assim como os sul-coreanos, conterrâneos de Chang. O Estado teve que intervir, organizando a economia, favorecendo o mercado interno. Esta é a teoria da “indústria nascente” e não foi inventada pelos japoneses, mas pelo pai-fundador norte-americano Alexander Hamilton (1755-1804). Na delicada fase de industrialização de uma nação, necessitasse de um governo com políticas indutoras das indústrias ainda imaturas para suportar a arena internacional. Nesta visão, a luta inicial pela vida das pequenas e médias empresas industriais, a política insufladora é a chave certa, mas não a única, no sentido de que pode não ser suficiente por si só.
No capítulo Anchova, após o parêntese histórico-culinário, o economista defende a necessidade de outro grande pilar da economia de um país: o know-how, o investimento em pesquisa científica e tecnológica. As inovações tecnológicas permitiram reproduzir do zero as matérias-primas que fizeram a fortuna de alguns estados no século XIX. Antes dos produtos obtidos por síntese química, os estados prosperavam graças à sorte de ter recursos naturais locais importantes para a economia da época: o Peru, por exemplo, era o principal exportador de guano (excremento ressecado) das aves marinhas, um fertilizante muito apreciado antes que o ganhador do Prêmio Nobel de Química em 1918 o alemão Fritz Haber (1868-1934) inventasse o método para isolar o nitrogênio do ar para obter amônia, a partir do qual obter fertilizantes artificiais. Isso vale para a produção de borracha no Brasil, substituída por um substituto sintético. A economia ensina que a primazia da produção de bens primários é a coisa mais transitória que pode existir dado o conhecimento científico-tecnológico.
Estamos diante de um livro cheio de matéria de reflexão (e receitas rápidas espalhadas nele), de conhecimentos importantes para ser um cidadão consciente, dotado das ferramentas para saber orientar-se numa sociedade e num mundo em constante mudança, onde nenhuma teoria econômica é eficaz em si, sem tempo e espaço.
Isso e muito mais num ensaio muito agradável no qual o professor Chang desmascara todos os falsos mitos criados pelo preconceito e pela ignorância sobre as teorias econômicas e pratos e bebidas típicos da culinária internacional e os relacionamentos dessas comidas com os países. Como um prato bom e nutritivo onde os vários ingredientes são sabiamente dosados, assim Chang escreve uma obra muito agradável e enriquecedora para o nosso amor ao conhecimento e a uma bela mesa farta.
22 de junho de 2025.
Ricardo Marinho é Presidente do Conselho Deliberativo da CEDAE Saúde e professor da Faculdade Unyleya, da UniverCEDAE, da Teia de Saberes e do Instituto Devecchi.



