Para o extremismo talvez nem a morte, por Allan Freire

Dia 2 de setembro de 2025 se avizinha. Com isto, crescem as repercussões midiáticas de tudo que acontece relacionado ao julgamento contra os perpetradores da tentativa de golpe de Estado do 08 de janeiro de 2023. Aliás, de lá pra cá, gestos de extremo-direitismo e minigolpes ocorreram na órbita da pauta anistiem os golpistas: homem-bomba solo em atentado contra a sede do STF (emblemático, aliás, corpo jaz perante a estátua da Justiça¹); articulação internacional de Bolsofilho Eduardo, pró-pai e lesa-pátria; motim bolsonarista de travamento das atividades do Congresso Nacional (na volta do presidente da Câmara, Hugo Motta, à sua cadeira, um dos primeiros dizeres sobre o episódio foi O que aconteceu nessa Casa não foi bom²…duras palavras, hein?!). Afinal, nada mais sensato e inteligente para dizer que não houve golpe do que tentar outros!

Em meio a estas ocorrências que demonstram uma nova escalada de tensões da direita que se tornou rebelde, se percebe que o que se especulava acontecer entre uma virada de 2025 para 2026 por conta do pleito presidencial, teve um adiantamento frente ao fato de que a intentona de 2023 não seria um novo passar de pano na história. Assim, qualquer que fosse o momento, o fato é de que analistas nunca consideraram que a polarização tivesse deixado de existir ou mesmo tivesse enfraquecido ao ponto de se tornar apenas um surto na nossa trajetória política recente. Por isto, vem ao pensamento aquilo que a ficção já pratica há tempos, imaginar histórias alternativas do futuro que, no caso daquelas não idílicas, se tratam de distopias (a lá 1984) com tempos obscuros e imagináveis à frente.

O exercício contrafactual desta vez é por conta de projeções de um futuro próximo a Jair Bolsonaro em meio à consideração por seu julgamento e prisão (não domiciliar) como pena. Seria algo que, desde já, apresenta plausibilidade e, portanto, temor da horda extremista como algo projetado do próprio líder que, com temor maior do que não participar de pleitos eleitorais, tem medo de morrer na prisão devido aos seus 70 anos de idade³. Afinal, com expectativas de que as condenações possam somar mais de 40 anos de cárcere, mesmo considerando um excelente comportamento (que reiteradas transgressões a medidas cautelares do uso de tornozeleira eletrônica e prisão domiciliar não fornecem referências positivas), estaríamos ainda falando em mais de uma década de prisão.

Se preso, é de fácil visualização mental imaginar futuros acampamentos verde-amarelistas perante o xadrez do Jair; manifestações vociferadas nos púlpitos do Congresso Nacional para que libertem o justo entre os injustos; manifestações em Paulista, Copacabana e shopping centers pela liberdade daquele que, mais uma vez, sofre a perseguição de um decrépito sistema formado por uma ditadura judicial orquestrada pelo maestro Xandão cabeça de ovo e a presidência de um governo comunista de um molusco e cachaceiro, descoordenado e nove dedos; nova enxurrada das boas e velhas publicações recheadas das mais finas flores de ódio, ignorância e fake news para expor verdades ocultas sobre políticos esquerdistas e acadêmicos doutrinadores. Enfim, o esgoto da política continuando a escorrer por um vazamento que só aumentaria com o frenesi gerado pela audácia de aprisionar um mito.

Quando morto (e percebam que não usei se, pois, por incrível que pareça, as células de Bolsonaro também se degradam para uma inevitabilidade da não existência física), o incauto mais à esquerda pode imaginar durante a euforia da notícia do inimigo falecido que a ideia se enterra com o corpo. Contudo, é plausível imaginar que a ampla mobilização de afetos gerada pelo bolsonarismo dos últimos anos promoveu um sectarismo de direita que, não à toa, rendeu análises comparativas com o quanto teriam de similaridade com os ocorridos na Itália e Alemanha da primeira metade do século XX. Neste sentido, a queda da matéria seria ascensão da ideia, quando Bolsonaro então atingiria sua apoteose (do grego, apothéosis, deificação), tornando mais evidente aquilo que já ocorre, o homem vai, mas seu conceito fica e se fortalece, residindo aí o perigo que já se anunciava pelo fraco manejo de forças opositoras. Desta maneira, veríamos ações frenéticas do tipo comentado sobre a prisão, só que elevadas a várias potências, tornando ainda mais longínquo um futuro de harmonia entre os diferentes e de prevalência de uma maioria que não fizesse manifestações gigantes pedindo liberdade para instauração de medidas que diminuíssem as liberdades. Além, é claro, de peregrinações a um mausoléu tais quais visitas saudosistas a um Franco ou Salazar.

Se este texto lhe parecer desalentador, considere que a essência é ser provocador, no ímpeto de apresentar uma distopia próxima e plausível frente a um país que teima em não aprender com sua própria história. Mas nem por isso se coloca como inevitável taxativamente, pois que se uma possível condenação e futura morte de um líder extremista podem ser antessala do reforço positivo ao autoritarismo fomentado pelas massas, também são incômodos reflexivos para maiores e melhores mobilizações, de maneira que nada disto ocorra. Portanto, é sim triste, mas intencionalmente desconfortável imaginar tais cenários para que forças esquerdistas, progressistas e liberais (de um liberalismo sensato, e não daquele com “liberal” na fachada da organização e, por trás do muro, um feixe de varas abraçado com uma cruz gamada) aprimorem a correlação de forças.

Hoje, o julgamento marcado de Bolsonaro e outros é um avanço que já contradisse a descrença original de que nada aconteceria, pois a impunidade sempre impera (como a ocorrida com os psicopatas de 64). Recentemente, ações digitais por memes do governo e alinhados ideologicamente chamaram atenção pelas produções favoráveis à taxação dos super ricos e aumento na tabela de isenção do imposto de renda. Naturalmente que uma guerra online está aquém de um ganho robusto na luta política, mas apresenta uma interessante desenvoltura no uso da linguagem digital que, até então, era o 7 x 1 da direita.

De uma mescla entre história e produção do mundo pop, surge o eco de Guy Fawkes e a ideia de Remember, remember, the 5th of November⁴, o dia 2 de setembro se avizinha com a expectativa de que (mesmo não sendo conspiratória e nem usando pólvora) entre para a memória histórica como aquele momento em que, contrário ao 1605 derrotado, seja nova versão de luta (genuína e legal) contra a tirania de poderosos em um 2025, uma de muitas grandes vitórias contra o extremo-direitismo, gradativamente enviado de volta à sua caixa de Pandora.

Eu lembro, eu lembro do 2 de setembro!

 

¹ – BANDEIRA, Karolini e TEÓFILO, Sarah. Corpo permaneceu na Praça dos Três Poderes 13 horas após explosões, e policiais fazem varredura no local. Disponível em: <https: //oglobo.globo.com /politica/ noticia/2024/11/14/corpo-segue-na-praca-dos-tres-poderes-12-horas-apos-explosoes-e-policiais-fazem-varredura-no-local.ghtml>. Acesso em: 23 ago 2025.

² – BRAGON, Ranier e LINHARES, Carolina e CUNTO, Raphael Di. Motta retoma cadeira após motim bolsonarista. Disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/poder/2025/08/motta-retoma-presidencia-da-camara-de-bolsonaristas-apos-tentar-por-seis-minutos-e-ameacar-recuar.shtml>. Acesso em: 23 ago 2025.

³ – KESLE, Lukas. Bolsonaro diz que ‘vai morrer na cadeia’ se for condenado por tentativa de golpe. Disponível em: <https://www.estadao.com.br/politica/jair-bolsonaro-diz-vai-morrer-cadeia-se-for-condenado-tentativa-golpe-nprp/?srsltid =AfmBOoof3uBAOdH9LIF5ZSzcS53To7Zlom _G_ yZL C W0MZm_SparDJtx2>. Acesso em: 23 ago 2025.

⁴ – Lembre, lembre do 5 de Novembro. Referência à Conspiração da Pólvora, quando Guy Fawkes, rebelde inglês, participou de movimento, em 1605 na Inglaterra, para assassinar o rei Jaime I e parlamentares ingleses por suas arbitrariedades em perseguições religiosas e gastos excessivos da Coroa. Por meio da denúncia de uma carta anônima, os envolvidos foram presos, torturados e executados. História ganhou notoriedade com a inspiração para quadrinho (1982) e posterior filme (2005) de mesmo título, V de Vingança, onde num futuro distópico, justiceiro mascarado combate uma sociedade inglesa dominada por um governo tirânico.

 

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