Filme resenhado: Seftel, Joshua. Quartos Vazios. EUA: 2025.
Para Tumbler Ridge, na Colúmbia Britânica, Canadá
Questões de deveres e controle de armas podem ser abordadas de várias formas em documentários. O curta-metragem emocionante e ponderado, de 33 minutos, dirigido por Joshua Seftel (indicado ao Oscar pelo curta-metragem documental de Malala Yousafzai de 2022, Stranger at the Gate)., Quartos vazios (Netflix, 2025), vai direto ao coração: onde está a educação e a sociabilidade em um mundo onde se dispara com armas de fogo contra crianças em escolas? É inevitável lembrar que a escola deveria ser, antes de tudo, um espaço de proteção, acolhimento e formação humana. É nela que se constroem valores, vínculos e o senso de convivência coletiva. Transformar esse ambiente em cenário de violência representa uma ruptura profunda com o seu projeto social. Quando a escola deixa de ser percebida como lugar de seguridade plena, abala-se não apenas a comunidade escolar, mas a própria ideia de futuro.
Este é um filme que mostra um projeto de 7 anos do jornalista Steve Hartman, que contou com o fotógrafo Lou Bopp, no qual percorrem várias cidades dos Estados Unidos para fazer o registro dos quartos vazios das crianças perdidas em tiroteios em escolas, mas repletos das memorias delas, expondo as realidades das famílias tendo que lidar com o luto.
Importante reter que Quartos Vazios nos lembra que o luto não é linear, não tem prazo e não tem como ser plenamente compreendido.
Os depoimentos dos pais enlutados mostram que os lutos são universais e cada pessoa o atravessa de sua própria maneira, como se vê também em Hamnet (2025). Para os pais do curta-metragem, manter o quarto é uma maneira de preservar a conexão com quem se foi.
Ao fazer essa jornada mostra-se as fontes de empatia que esses quartos vazios surgidos de eventos violentos despertam – e, sim, como a dor dessas famílias e comunidades seguem muito depois das tristes manchetes terem desaparecido.
Quartos Vazios gritam surdamente pela tênue presença na ausência absurda que ficou.

Ambientado em grande parte nas cidades dos Estados Unidos (EUA), o curta mantém-se próximo da emoção das imagens com a mensagem das estatísticas sobre os tiroteios em escolas e suas vítimas. A obra não versa diretamente sobre as armas e a influência do seu lobby nessa sociedade: há 88,8 armas para cada 100 pessoas. O dinheiro pró-direitos às armas foram predominantemente para a campanhas do presidente Trump. Hartman se afasta temporariamente de suas reportagens habituais e, sem que seus chefes na emissora saibam, dedica-se a uma investigação mais profunda sobre ausência, memória e os impactos visíveis e invisíveis da devastadora epidemia de violência armada nos Estados Unidos. Ao fazer isso, ele busca ir além das manchetes e estatísticas, procurando revelar as marcas profundas que essas tragédias deixam nas famílias e nas comunidades afetadas.
À medida que esses incidentes sem sentido ceifam mais vidas jovens do que qualquer outra causa nos EUA, esses quartos silenciados revelam verdades mais poderosas do que as estatísticas jamais poderiam revelar.
A fotografia de Bopp encontra um caminho humanizador dessas tragédias sem sentido e nos ajuda a olhar para aquilo que quase inconsciente preferimos desviar o olhar.
As fotografias são fragmentos que contam histórias de quem nos deixou e de quem ficou através dos objetos deixados para trás, que, aliás, não tem o condão de transformar quem as vê em meros espectadores, mas em testemunhas de um conforto quase insondável.
Cada objeto conta uma história, traz uma lembrança, guarda cheiros e imagens. Não são apenas coisas, são vestígios dos dias de presenças, fragmentos de vidas e sonhos interrompidos.
Os quartos mostrados pertencem aos eventos nefandos ocorridos nos últimos cinco anos, um tempo que, na dimensão da dor, não tem medida pois é tanto um instante quanto uma eternidade.
No documentário, o jornalista e o fotógrafo são pais e se emocionam diversas vezes imaginando que aqueles quartos vazios poderiam ser dos próprios filhos e o luto poderia ser deles. Essa empatia revela que o respeito a quem está vivendo o luto possibilita a conexão profunda para com essa dor dos diversos outros.
Quartos vazios é mais do que um filme. É um chamado à ação. Ao homenagear as crianças e suas famílias apresentadas, somos lembrados do impacto duradouro dos tiroteios escolares e da violência armada nas comunidades de toda a América e no mundo. Juntos, ao lembramos as perdas absurdas e bem como a empatia com os que ficaram com o luto é mais um passo dado para a erradicação dessa mazela. E cada passo importa.
23 de fevereiro de 2026
Presidente do Conselho Deliberativo da CEDAE Saúde e professor da Faculdade Unyleya, da UniverCEDAE e da Teia de Saberes.



