Oscar 2026 servirá para os historiadores apontarem como Trump voltou, diz professor.

Mais uma cerimônia de entrega dos Prêmios da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, o Oscar, se aproxima. Fechando a temporada anual de premiações concedidas às produções cinematográficas, é considerada a principal distinção da indústria cinematográfica mundial e reúne produções, diretores, atores e técnicos que se destacaram ao longo do último ano. Além do reconhecimento artístico, o evento costuma mobilizar grande atenção da imprensa e do público, funcionando também como um momento de visibilidade para debates mais amplos sobre cultura, sociedade e política nos Estados Unidos e no mundo.

Talvez surpreendentemente, a safra de filmes produzidos entre a última cerimônia do Oscar e a que ocorrerá neste domingo (15) foi de excelente qualidade. Nesse conjunto, o Brasil ocupa lugar importante com O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, um ano depois de Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, sagrar-se vencedor na categoria de Melhor Filme Internacional, além da presença de Adolpho Veloso, diretor de fotografia em destaque na temporada de premiações por Sonhos de Trem, dirigido por Clint Bentley. O Agente Secreto e Adolpho figurarem entre essas obras não é pouca coisa.

Já se tornou tradição o Voto Positivo entrevistar o professor Pablo Spinelli às vésperas do Oscar. Doutorando em Ciência Política pela UNIRIO e também colunista do blog, Spinelli consolidou-se como nosso principal intérprete da premiação. Desta vez, porém, ele fala diante de um cenário internacional ainda mais difícil, ainda mais aprofundado por guerras e pelo uso da força em detrimento da via diplomática, no qual o Brasil pode contribuir com suas vocações civilizatórias. “Até hoje eles não entendem como um país do Sul do Mundo conseguiu manter a sua democracia”, diz, “somos o espelho invertido deles, pela constituição de nosso iberismo e americanismo aqui.”

Confira a entrevista:

 

Em 2022, numa atitude curiosa, a Academia permitiu um discurso de Volodimir Zelensky sobre a crise na Ucrânia. Você acha que seria o momento dos iranianos reivindicarem o mesmo tratamento?

Foi aberto um precedente perigoso. Foi no governo Biden, não? Olhemos no que deu essa sandice. A Academia é o espírito da sua época. Crise de 29, II Guerra, Direitos Civis, Vietnã, Anos Reagan. Está tudo nas indicações, no formato das premiações, nos apresentadores. O cenário atual é da antipolítica, da aposta na polarização afetiva: a destruição do que não gosto é mais importante do que a vitória do que apoio. Eis a Ucrânia, que hoje está de pires na mão. Essa cerimônia servirá para os historiadores apontarem como Trump voltou.

 

Diante desse cenário internacional que abre nossa entrevista, qual o significado das cinco indicações de brasileiros, um recorde histórico, no Oscar de 2026?

É um caminho de longa travessia. O Pagador de Promessas nos anos 1960. Hector Babenco, um cineasta que precisa ser revisto pelos jovens, nos anos 80. A retomada dos anos 1990 com O Quatrilho e até o fraco O que é isso, companheiro?. E tivemos as Fernandas e Walter Salles para agora termos esse recorde com a fotografia de Sonhos de Trem e as indicações de O Agente Secreto. Temos uma fortuna. A Academia tem “ondas”. Foram os italianos, os suecos; os iranianos, os sul-coreanos e nós agora. Até hoje eles não entendem como um país do Sul do Mundo conseguiu manter a sua democracia, como as instituições funcionaram. Isso não quer dizer que sempre foi assim tal como esse olhar da conjuntura dos americanos em nós. Além disso, a despeito de ranços ideológicos, soubemos fazer melhor uma propaganda mundial.

Cena do filme Foi Apenas um Acidente, de Jafar Panahi, indicado à Melhor Filme Internacional e Melhor Roteiro Original.

 

Um brasileiro, Adolpho Veloso, vencer o Oscar na categoria de Melhor Fotografia pelo filme Sonhos de Trem não seria uma resposta benjaminiana ao cenário internacional conflituoso?

Você cita o filósofo alemão Walter Benjamin, um amante do cinema, da fotografia e da história. Creio que Veloso teve a proeza de, ao fotografar um filme, dar um ritmo e identidade a ele. Algo que poucos conseguem fazer, como os lendários Sven Nykvist, Vilmos Zsigmond, Vittorio Storaro fizeram em obras-primas. Creio que ele teve a sensibilidade de resgatar uma utopia dos EUA do homem comum, da relação com a natureza que remonta Mark Twain, Walt Whitman e J D Salinger. Mais uma demonstração que talvez saibamos mais da América do que eles nesse momento. Somos o Espelho invertido deles, pela constituição de nosso iberismo e americanismo aqui.

 

O filme O Agente Secreto não foi recebido pelo público brasileiro de forma tão positiva quanto Ainda estou Aqui. Na hipótese de alguma vitória nas suas quatro indicações, você acha que o público irá ao cinema assistir ao filme de Kleber Mendonça?

Engraçado que não está uma final de Copa como no ano passado, não? O filme atual é mais difícil, um olhar humanista sim, mas com toada europeia. Resgata o papel do historiador, de como aqueles que foram esquecidos ou ignorados podem ser redescobertos no futuro. Creio que uma das diferenças dos filmes é também a semelhança entre os dois: ambos falam de família. Mas o Ainda é a unidade na diversidade e adversidade, já O Agente vive o esfacelamento, a fratura, o esquecimento. É um filme com muitas camadas. Muitos não entenderam que o ator fez 3 personagens no mesmo filme. Vai levar o Melhor Filme Internacional. Seremos bi na terra de penta.

 

Qual Diretor, em sua opinião, se destaca no Oscar 2026?

O meu destaque é a Chloe Zhao. Depois de um filme bom de crítica e ruim de público (Nomadland) e ruim dos dois (Eternos) ela fez um golaço com Hammet. O tema do amor, do luto, o trabalho em cores, o uso dos sons, tudo ali é bem-posto. O Josh Safdie (Marty Supreme) fez um filme muito bom, o do jovem arrivista egoísta, um retrato do que temo seja de pior da juventude hoje. Ryan Coogler é o herdeiro do Spike Lee, para o bem e para o mal. Quem está na fila é o Paul Thomas Anderson, que vai ganhar o Oscar merecido pelo filme errado. Sangue Negro é anos-luz melhor que Uma batalha após a Outra.

 

Quem, em sua opinião, é favorita ao Oscar de melhor atriz esse ano?

Jessie Buckley já pode guardar um espaço na estante. Tirando Emma Stone e Renate Reinsve, as demais estão em filmes que não tiveram projeção com outras estatuetas. A Jessie Buckley, mesmo com o cacoete de falar de lado, é uma força da natureza em Hammet. Não precisamos de lugar de fala para sentir a dor daquela mãe diante da perda de um filho.

Da esquerda para a direita: Teyana Taylor e Paul Thomas Anderson, indicados, respectivamente, à Melhor Atriz Coadjuvante e Melhor Direção por Uma Batalha Após a Outra; Wagner Moura e Kleber Mendonça Filho, respectivamente ator e diretor de O Agente Secreto, sendo o primeiro indicado à Melhor Ator. Registro do encontro no Critics Choice Awards, onde ambos os filmes se sagraram vencedores.

 

Teremos baiano ganhando o Oscar esse ano?

Não. Caetano e Carlinhos Brown estiveram na cerimônia no passado. Wagner Moura é o ator de maior projeção internacional, o que não é pouco. O Oscar está caminhando para Michael B. Jordan (Pecadores) depois da falta de responsabilidade e arrogância de Timothee Chalamet (Marty Supreme). E será um Oscar merecido. Um ator que faz dois irmãos gêmeos de perfis diferentes e que independente do figurino você sabe quem é quem, não é fácil. Oscar de interpretação geralmente é dado por reconhecimento pelos serviços prestados ou aposta no futuro. Os dois favoritos estão no segundo motivo. Muito bons atores, mas a gestão de carreira do Chalamet é frágil. E olha que pediu desculpas por ter trabalhado com Woody Allen!

 

Ainda teremos uma chance na categoria Melhor Filme Internacional?

É a melhor aposta. Por um motivo simples. A distribuidora teve dois trunfos na mão: O Agente Secreto e Valor Sentimental. Preferiu focar no primeiro para Filme Internacional e no segundo para a pragmática indicação de ator coadjuvante. Agora, Trump – e a política de Obama-Biden – pode dar esse Oscar para o Irã? Pode. Muito difícil, mas pode.

 

De todas as indicações ao Oscar 2026, qual seria a grande “derrapada” da Academia nesse ano?

Ah, sempre tem várias. A distopia Uma Batalha após a Outra merecia tantas indicações? Vai envelhecer bem? O nosso roteiro poderia ter sido indicado, não? A direção de elenco é algo que foi criado para ser o Urso de Prata deles, o segundo colocado. Kate Hudson ser indicada a melhor atriz. O descaso com a adaptação sul-coreana de O Corte de Costa-Gravas, A Única Saída, do Park Chan-wook. A ausência de Paul Mescal por Hamnet.

 

Por fim, quem tem mais chances de ganhar a estatueta por melhor Filme?

Esse ano está em Uma Batalha após a Outra e Pecadores. Pode acontecer de um ganhar filme e o outro direção. Ambos são filmes que dizem muito do contexto atual, mas seus caminhos apontam para o sectarismo. A bem da verdade, não entendo (e ainda bem) como Uma Batalha não foi cancelado por parte dos movimentos sociais. A protagonista negra tem muitas camadas e se relaciona com dois brancos de lados ideológicos distintos; tem a caricatura do militante moderno, sentado no sofá se drogando. O ponto alto desse filme é justamente o fascista magnificamente vivido por Sean Penn rumo ao seu terceiro Oscar.

 

Entrevista: Vagner Gomes
Edição e introdução: Marcio Junior

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