O surpreendente silêncio sobre a Frente Democrática, por Vagner Gomes

Estamos num período pandêmico de pesquisas eleitorais, que mais confundem do que esclarecem o cenário político brasileiro sobre as próximas eleições presidenciais e influenciam nas “danças das cadeiras” dos parlamentares, que se aproveitam da “janela da fidelidade partidária” para buscar legendas mais competitivas. E, assim como na pandemia da COVID-19, não faltam os comentaristas de pesquisas que passam à margem da grande questão: o brasileiro está motivado a votar? Está, de fato, dedicando horas de seu dia para comparar as pré-candidaturas que estão se desenhando?

Então, pelo histórico político de nosso país (em que o eleitor define seu voto na última semana anterior as eleições e, em alguns casos, nas últimas 72 horas), podemos afirmar que estamos testemunhando uma “sopa de números” que não determina nada sobre um possível crescimento da candidatura da oposição. O recente “empate” de intenções de votos entre o atual incumbente e o filho do mandatário anterior nada mais seria que um “recall” do resultado do segundo turno das eleições de 2022. Muito mais simples ao entrevistado reeditar aquele voto sufragado a quase quatro anos do que refletir sobre uma séria comparação entre a atual gestão e a anterior.

Muito mais que uma simples polarização afetiva consolidada, estamos em tempos de reafirmação de um ponto de partida de uma campanha na qual, em todos os cenários, o atual mandatário ainda não foi suplantado pela candidatura opositora, apesar do desafino gritante do grupo em torno da campanha de reeleição no Carnaval e em outros episódios políticos, uma vez que o Governo, que foi eleito em 2022 sob a égide da Frente Democrática, se transformou num mosaico de Ministros de legendas sem enraizamento na sociedade, que poucos votos conferiram de fidelidade ao Governo. O chamado “parlamentarismo orçamentário” é uma novidade política que os articuladores do atual Governo não souberam lidar de uma forma republicana e democrática. Ficamos a testemunhar uma mídia digital a reafirmar que existe um Congresso contra o povo, ou seja, desqualificando os resultados das urnas.

O Vice-Presidente Geraldo Alckmin (ao centro) com o Presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (à esquerda) e o Presidente do Senado e do Congresso Nacional, Davi Alcolumbre (à direita).

 

Se compararmos com a fala do atual presidente no início de seu terceiro mandato quando se aproximou do Deputado Artur Lira, observamos uma desorganização da articulação política que assumiu um viés de confronto e tensão, como se polarizar fosse a melhor alternativa. E estamos a observar a colheita dessa política sectária, que emergiu no Planalto com o afastamento do atual Ministro da Saúde de sua função política anterior. Não nos faltam exemplos para demonstrar que o grande desafio da campanha da reeleição não é de conquistar os eleitores evangélicos, mas de fazer o núcleo que cerca o atual mandatário reduzir seu fanatismo político e seu revanchismo onde, a cada pesquisa desfavorável, atribui ao eleitor das camadas populares (“pobre de direita”) uma marca de traição aos programas sociais que foram retomados e ampliados.

Não se pode esperar autocrítica, muito menos ajuste de rota, enquanto prevalecer o entendimento de que personalidades do centro político que se comprometeram com a vitória apertada do atual governo deveriam mesmo ter sido relegadas ao limbo da articulação política e mobilizadas apenas quando isso fosse conveniente ao interesse pragmático do Partido dos Trabalhadores. Portanto, um Governo de Centro é interpretado como uma gestão petista. Na linha da ascensão da popularidade do atual mandatário no ano passado, após a Trump-Taxação, vimos muito Geraldo. Agora, nessa derrapada nos números, lembremo-nos do discurso de posse de Boulos. A colheita de números desfavoráveis é apenas uma sinalização de que o leitor deseja um “freio” nesses devaneios sectários de confronto entre ricos e pobres, que o debate sobre a jornada de trabalho veio mais para confundir o eleitor brasileiro.

Temos uma jornada de trabalho muito injusta, assim como o número já pequeno de creches públicas sem funcionar aos finais de semana é injusto, só para citar um exemplo do quanto o debate social democrata está “congelado” num país que ainda não ousou colocar as mulheres no debate programático. A presença marcante delas no atual mandato presidencial ainda foi um passo tímido na formação de mulheres com anseios a participar da campanha eleitoral para cargos eletivos ao legislativo. Esse vácuo político tende a ser preenchido por mulheres de uma extrema-direita opaca diante da realidade da sociedade brasileira, mas que “surfam” muito bem nos delírios do idealismo inorgânico de mulheres sem lastro nas camadas populares. Que fim deram à Autoridade Climática proposta por uma ministra mulher e evangélica? O que fizeram com a Senadora Eliziane Gama para demonstrar uma ampla Frente Democrática? Por que deixaram uma Ministra questionar a equipe ministerial de outra Ministra no início desse terceiro mandato? Como se deu o afastamento da Ministra da Saúde? Esses questionamentos solicitam uma reflexão e um balanço político necessário diante do silêncio sobre a Frente Democrática.

 

Vagner Gomes é Doutorando no PPGCP-UNIRIO.

 

Imagem da Capa: Lula, em campanha para o pleito de 2022, no palanque com Simone Tebet e Marina Silva.

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