Como é possível perceber no sábio ditado popular, avisar sobre alguma situação de risco que alguém pode se envolver caso tome uma determinada ação é um ato que pode fazer bem, quase sempre o que se espera de quem com quem possui amizade. Afinal de contas, não é do feitio do bom amigo, muito menos do bom professor, deixar alguém se prejudicar por estar desavisado com relação a determinada situação.
Para quem gosta e acompanha as produções cinematográficas, o filme A Grande Aposta (2016) não passa batido, dada a qualidade do roteiro e da direção frenética de Adam McKay, que posteriormente viria a filmar os excelentes e divertidos Vice (2018) e Não Olhe para Cima (2021). Adaptado do livro A Jogada do Século (2011), do igualmente excelente jornalista Michael Lewis, tanto o texto quanto o filme tratam não apenas do colapso financeiro de 2008, mas principalmente da sua iminência e daqueles que tiveram a capacidade de percebê-la, explicá-la e, evidentemente, tirar proveito dela. Vivenciar a crise durante o seu acontecimento é bastante diferente da sua antecipação.
Mas, interesses à parte e sem misturá-los em demasia à boa amizade, é sábia e esperta a atitude de ver, além de operador financeiro, também um analista no Dr. Michael J. Burry, personagem magistralmente interpretado por Christian Bale e que anteviu a crise. Médico de formação e neurologista, a investigação exploratória não é uma prática desconhecida para o personagem, haja visto que, desde Aristóteles, a exploração dos corpos e não só era o modo mais elementar da ciência, e a tecnologia incorporou métodos de investigação dos nossos corpos e possíveis patologias de maneira pouco ou nada invasiva. Para o Dr. Burry, porém, a utilização do método investigativo que o médico faz da organicidade que as vidas apresentam também foi útil ao analisar as hipotecas que não estavam sendo pagas. Houve metodologia científica sobre o fato no que ele tem de mais primário, que era a possível inadimplência dos pagadores e a tendência acerca dela, o que revelava uma determinada atividade de mercado com características muito diferentes (e reais) do que era exposto através da contabilidade dos operadores.

Como sabemos, as inadimplências não apenas subiram e a crise se instalou, como a intransparência dos mecanismos pelos quais as dívidas das pessoas circulavam pelo sistema financeiro global possibilitou que a falência não se restringisse aos EUA. Assim, a tragédia aconteceu.
A fatídica crise, porém, evidentemente não evitou que o modo de operação que levou a ela não se repetisse. Mesmo que não envolvesse casas.
É uma obviedade que novas técnicas e tecnologias sempre vêm acompanhadas de uma série de interesses na medida em que, na história contemporânea, a criação de novas ferramentas esteve e está associada a possíveis ganhos obtidos na sua aplicação. Esse fator importante tende a ser mais difícil de explicar para o grande número que, a depender da tecnologia, possui acesso individualizado também gratuito, como no caso da inteligência artificial generativa. Ao atingir níveis extremamente complexos, tempos recordes de atualização e necessidade de cada vez maior perícia e habilidade especializada, o acesso individual torna-se apenas uma ilusão de democratização pois, além do mau uso, cujas consequências, inclusive e principalmente educacionais, podem ir tragicamente longe, também cada pessoa divide com as empresas a sua vida, gostos, opiniões e, sobretudo, seus dados.

O massivo investimento em empresas de IA, que leva as suas ações a uma grande valoração, se dá sobretudo por conta de “expectativas” acerca do que esta tecnologia é capaz de fazer e, consequentemente, do que e quanto é possível ganhar de retorno com o seu uso. Retorno este que não é apenas monetário, podendo se tratar de interesses vários, como ilustrado pelos diversos contratos feitos pelo outrora Departamento de Defesa (hoje Departamento de Guerra), do Governo Federal dos EUA, junto à empresa de software para IA Palantir, com a multiplicação de fechamento de contratos no primeiro governo de Donald Trump, continuando no governo de Joe Biden e hoje, já no segundo governo de Trump, todos os contratos estão encerrados e um único contrato com teto de 10 bilhões de dólares passou a vigorar. As forças democráticas estão acompanhando o quadro e buscando fazer a política necessária para a intervenção virtuosa em um quadro dificílimo, onde este dado é apenas uma de suas dimensões?
O mencionado Dr. Burry, segundo dados da SEC (U. S. Securities and Exchange Commission), investiu quase 1 bilhão e 100 milhões de dólares¹ em opções de venda² das ações de duas empresas: Palantir e NVIDIA, sendo o caso da primeira, desenvolvedora de softwares, merecedor de mais de 900 milhões. A segunda é, entre outras coisas, também desenvolvedora de infraestrutura para IA. Em 2026, o curso de Bacharelado em Inteligência Artificial figurava entre os cursos com maiores notas de corte no Sistema de Seleção Unificada (SISU). Apostaremos aí a nossa juventude? É, repetiremos, sinal de sabedoria e bom juízo ouvir os avisos dos nossos amigos.
¹ – http://edgar.secdatabase.com/1109/164933925000007/filing-main.htm
² – Opções de venda (ou put) são contratos que permitem lucrar com a queda do preço de uma ação mesmo sem possuí-la. Ao comprar apenas a opção, o investidor adquire o direito de vender a ação por um preço fixado previamente. Se o preço da ação cair abaixo desse valor, a opção se valoriza, pois passa a representar a possibilidade de vender por um preço maior do que o praticado no mercado. O investidor pode então vender a própria opção por um valor mais alto, mesmo sem nunca ter comprado a ação.
Marcio Junior é doutorando do CPDA/UFRRJ, responsável pelo Treinamento e Desenvolvimento Profissional da Cedae Saúde, professor da Teia de Saberes e editor do Voto Positivo.



