Filme resenhado: Hamnet: A Vida Antes de Hamlet (2025), dirigido por Chloé Zhao. Com Jessie Buckley, Paul Mescal. Indicado a 8 Oscar, incluindo Melhor: Filme, Direção, Atriz, Roteiro Adaptado e Figurino.
O processo de luto diante de uma pessoa amada foi e é alvo de estudos que englobam áreas de conhecimento que vão da psicanálise à antropologia, além de, sabidamente, todas as religiões se debruçarem sobre esse tema. Tornou-se clássica a sequência composta por cinco fases principais baseadas no modelo de Elisabeth Kubler-Ross: negação, raiva, barganha, depressão e aceitação. Essas etapas podem ocorrer em ordens diferentes, sobrepor-se ou retornar, sendo uma resposta saudável e singular à dor.
Isso posto, trazemos para a nossa modesta análise o filme Hamnet, baseado no romance de Maggie O’Farrell, de 2020, que apresenta uma versão fictícia do relacionamento entre Shakespeare e Anne Hathaway (homônima da atriz), também conhecida como Agnes, e a morte de seu filho Hamnet, de 11 anos, em 1596.
O filme trata de tema tão sensível com uma velocidade diversa do que predomina o cinema atual. Sua diretora imprime um ritmo desacelerado derivado de um antigo cinema asiático que teve ecos em algumas produções do italiano Michelangelo Antonioni. O espectador fica impressionado com as cores, com o uso de luz natural nos cenários, o uso do som da natureza. O fio condutor para o mundo rural inglês do XVI é Agnes, interpretada com vigor por Buckley, provável vencedora do Oscar. Sua personagem – uma camponesa com seus saberes passados pela mãe – é uma mulher incompreendida em sua cidade. A ignorância das pessoas sobre seus conhecimentos e sua relação com a Natureza a rotula como feiticeira, uma mulher esquisita.
O seu encontro com o jovem William Shakespeare será um divisor de águas na vida de ambos e de suas famílias. Em um gesto de ousadia – o filme não aborda a diferença de idade do casal à época; ele com 18, ela com 22 anos – o amor do jovem professor de latim que dá aulas para pagar a dívida do pai com a jovem pertencente a uma família respeitável de pequenos proprietários de terra é um encontro disruptivo com as noções legais e consuetudinárias acerca do casamento. O amor precede às formalidades em uma relação minimamente revolucionária. Interessante notar que o filme não se debruça sobre o tema da virgindade dos personagens, ao contrário, nos dá a entender que Agnes era suficientemente dona de si.

Essa mesma mulher libertária nos costumes entende que a vila que o casal e uma filha habitam é pequena diante do talento e das necessidades de trabalho para o marido. É ela que impulsiona William (seu nome só é dito nos últimos minutos da película) para voar para Londres. Gestante, assume o controle da casa, da educação dos filhos e do parto natural no bosque. Quando impossibilitada de ir para a Natureza e diante do parto doméstico assistido, assim como bruxas e fantasmas de peças do companheiro, vaticina sobre a má fortuna da família.
Não é spoiler saber que o filho gêmeo do casal terá uma convalescença e morrerá. O que destacamos é o espírito de renúncia fraternal e poética em que isso se dá. É quase impossível não se emocionar com a burla infantil diante da Morte.
A partir daí vemos uma mudança na relação entre mulher e marido. Agnes passa dolorosamente pelo ciclo do seu luto e questiona a presença física do marido no momento da passagem pelo vale da sombra da morte. Como sabemos, não há terminologia para aqueles que perdem seus filhos. Há viúvos, órfãos, mas não há descrição em qualquer língua nessa inversão da ordem natural das coisas. O entendimento acerca desse vazio é o atalho para o vazio da alma dos personagens. O vazio do luto em Agnes começa a questionar o vazio da presença de William.
Sobre a ausência do pai acerca da formação de seus filhos é bom lembrar que não é um axioma. Lembremos das orientações do encarcerado Antonio Gramsci em cartas para sua esposa e filho mais velho. No caso de Shakespeare, a sua reconciliação com a lacuna do filho, com a mulher e consigo é pelo seu trabalho. A poética, linda e dolorosa sequência final nos lembra que a magia da arte supera a escuridão das trevas internas.
Sendo verdadeira a afirmação de Marx na qual afirma que “a tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos”, a arte e o amor são as formas acessíveis para os sonhos voltarem a ter vida.
Pablo Spinelli é Doutorando em Ciência Política (UNIRIO), Mestre em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade (UFRRJ) e professor de História na educação básica.



