A Voz de Hind Rajab, por Ricardo Marinho

Obra resenhada: A VOZ DE HIND RAJAB. Direção: Kaouther Ben Hania. Tunísia; França, 2025.

 

Em 29 de janeiro de 2024, o Exército Israelense ordenou a evacuação do bairro Tel Al-Hawa, na Faixa de Gaza. Naquele dia, seis membros da família Hamada, junto com sua sobrinha de seis anos, Hind Rajab, ficaram presos em seu carro após o próprio Exército Israelense abrir fogo contra eles, matando imediatamente cinco ocupantes do veículo. Milagrosamente, uma garota de quinze anos chamada Layan conseguiu ligar para a Sociedade do Crescente Vermelho Palestino e pedir ajuda antes de também sucumbir aos ferimentos. Isso deixou Hind, de seis anos, sozinha no carro, cercada pelos corpos de seus familiares mortos, possuindo um celular com sinal ruim e ainda com bateria como sua única esperança.

A Voz de Hind Rajab, o mais recente filme da tunisiana Kaouther Ben Hania, cujos filmes anteriores O Homem que Vendeu sua Pele (2020) e As 4 filhas de Olfa (2023) foram ambos indicados ao Oscar de Melhor Filme Internacional, é um drama comovente baseado nas ligações telefônicas de Hind com a Sociedade do Crescente Vermelho Palestino enquanto eles trabalhavam para tentar o resgate dela. O filme estreou no 82º Festival Internacional de Cinema de Veneza, onde ganhou o Grande Prêmio do Júri.

O filme, como o nosso O Agente Secreto (2025), deriva fortemente de arquivos, seja aqueles que vivem em histórias orais, seja aqueles que foram registrados, seja em canções, por fotografias fixas e câmeras de cinema, cinejornais e jornais, ou por meio das histórias orais passadas de um membro da sociedade para outro. É nesses arquivos pessoais e oficiais que a resiliência duradoura dessas histórias se mantém firme. É no lugar onde o arquivo se torna uma forma de arte por si só, que reside o coração do filme de Kaouther Ben Hania.

Enquadrado em uma proporção ultra-widescreen, Ben Hania usa um espectrograma para visualizar os arquivos de áudio, permitindo que a voz autêntica, pequena e frágil de Hind, às vezes, envolva toda a tela. A proporção widescreen permite que cada um dos trabalhadores humanitários do Crescente Vermelho – a gentil Rana (Saja Kilani), o animado Omar (Motaz Malhees), o prudente Mahdi (Amer Hlehel) e a calma Nisreen (Clara Khoury) – ocupem o enquadramento ao mesmo tempo, enquanto trabalham em conjunto para tentar o resgate de Hind. Exceto por uma sequência em que Ben Hania mistura perfeitamente seu drama com imagens reais do escritório filmadas para redes sociais, sua produção cinematográfica permanece principalmente no estilo clássico, apoiando-se em closes dos rostos dos atores enquanto eles passam por toda a gama de emoções ao conversar com Hind sobre o pior momento da vida dela, ou enquanto tentam manter a calma enquanto lidam com o pesadelo da dificílima negociação diplomática diante da guerra que tal operação exige em face a uma tentativa de resgate em uma zona restrita. Assim, o filme parece um drama de câmara, focando nos trabalhadores do Crescente Vermelho trabalhando incansavelmente para salvar sua vida, com a voz de Hind conectada por uma linha telefônica fraca, que o Exército Israelense frequentemente bloqueia.

A escolha de focar apenas no escritório é poderosa por vários motivos. Para começar, isso não transforma o sofrimento eventual de Hind em um espetáculo sangrento. A escolha de Ben Hania de manter a violência da guerra fora do quadro, ouvida apenas através de tiros na linha telefônica, força o espectador a focar no assunto em questão: a vida de Hind. Não há nenhuma imagem sangrenta para se afastar do que importa. Só há a voz dela, e os rostos daqueles que estão desesperadamente fazendo tudo o que podem para salvá-la. O espectador, como esses trabalhadores do Crescente Vermelho, deve sentar-se com Hind e testemunhar seu sofrimento, seus apelos singulares por ajuda, por sua vida.

Essa estrutura também expõe as dificuldades que esses trabalhadores humanitários precisam vencer para fazer seu trabalho. O carro em que Hind ficou presa com seus seis familiares falecidos ficava a apenas oito minutos da ambulância do Crescente Vermelho mais próxima, mas sem seguir o “protocolo à risca”, como Mahdi diz, eles levam três horas para tentar coordenar com o Exército Israelense uma rota segura para a ambulância, e depois um sinal verde para realmente usar a rota para buscar resgatá-la. Isso é violência administrativa, um conceito que pode ser difícil de compreender quando permanece teórico. Ainda assim, enquanto assistimos ao evento quase em tempo real, a violência se torna tão difícil de assistir quanto seria se Ben Hania tivesse colocado a câmera no carro com Hind enquanto as balas do tanque próximo caíam sobre sua família.

Por fim, a estrutura dissipa a ideia de que existe algum caminho para navegar pelas complexidades kafkianas de um regime opressor, como fica claro pelo triste destino de Hind e dos dois socorristas ambulâncias, Youssef Zeino e Ahmed Madhoun.

No início do filme, ainda preso no lamaçal dessa violenta burocracia, o escritório do Crescente Vermelho recorre às redes sociais, liberando áudios das ligações e fotografias de Hind como forma de provocar indignação internacional, na esperança de que a pressão externa levasse àquela evasiva luz verde.

Quem assiste A Voz de Hind Rajab não passa um dia sem que se pense em Hind e na vida que lhe foi negada. O filme de Ben Hania pede que você faça o mesmo: que lembre do sorriso dela, da voz, do amor dela pelo mar.

Com esse ato de lembrança em mente, também me lembro do menino Fernando, de O Agente Secreto, que será afastado definitivamente do pai. Os arquivos de áudio dos apelos de Hind aos trabalhadores humanitários do Crescente Vermelho funcionam como um arquivo não apenas da existência de Hind (como os de Armando, pai de Fernando), mas também dos sistemas cruéis que facilitaram seus assassinatos prematuros.

A Voz de Hind Rajab existe não apenas como um chamado claro para dizer “nunca mais”, mas também pede que não consintamos com essas violências. Não com o derramamento de sangue, não com a abstração de um número em uma matéria de notícias. Mas com essas violências. As violências física, mental e administrativa que foi infligida a essa jovem menina, que, como tantos de seus pares, ainda deveria estar aqui.

3 de março de 2026

 

Ricardo Marinho é Presidente do Conselho Deliberativo da CEDAE Saúde e professor da Faculdade Unyleya, da UniverCEDAE e da Teia de Saberes.

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