Esta análise é dedicada a todas as mulheres que não se dobram ao sistema, mesmo quando ele aparece de batom e ensaia a palavra “liberdade”. Às que resistem sem plateia, que não performam para o olhar alheio e sabem, por dentro e por fora, que nosso valor não cabe numa vitrine. E, especialmente, a nós, que seguimos firmes, com dignidade, ironia e humor.
Trabalho Honesto (Netflix, 2024) é uma série sul-coreana que, de cara, não me despertou animação (meu entusiasmo estava no modo soneca). O que parece: só mais uma história (daquelas para assistir enquanto dobra roupa) sobre quatro amigas vivendo em suas histórias o que nó, mulheres, passamos todos os dias, depois tentando ganhar a vida com a venda de produtos eróticos numa cidadezinha no interior. Mas não se engane! Por trás da infinidade de vibradores coloridos e das lingeries rendadas, a série entrega um verdadeiro tapa de luva (de couro, claro, pois estilo é tudo) nas relações entre trabalho e corpo.
A história se passa em uma zona rural no sul da Coreia do Sul, aquele lugar onde o tempo anda devagar, mas o machismo corre solto. Jung Soo‑yeon se vê sem emprego, num casamento em frangalhos e sem muitas opções. Até que surge a “oportunidade” de empreender vendendo produtos de sex shop. A proposta? Trabalhar com o prazer alheio enquanto sorri, se arruma, seduz e finge que está tudo ótimo. Que delícia, não? Logo no início, ambientado em 1992, já cai na boca do povo um bordão digno de tragédia, mas que daria pra estampar na camiseta: “mulher bonita não é bem‑sucedida”. Ah, sim. Porque, como diz o manual, se for feia, também não serve; se for séria, é metida; se for sensual, está se oferecendo. A série capricha no humor ácido e escancara as situações que fingimos não ver: o assédio normalizado, a chantagem emocional disfarçada de “relacionamento profissional”. E faz isso tudo com um toque de comédia que dá vontade de rir e chorar ao mesmo tempo, como num enredo de horror travestido de farsa.

Pra entender a engrenagem por trás dessa “franquia do prazer”, pensemos em Max Weber, que dizia que o capitalismo nos reduz a meros parafusos no maquinário. Em Trabalho Honesto, esse parafuso calça salto alto, ostenta rímel e é obrigado a sorrir, mesmo quando o cliente é insuportável. E Antonio Gramsci, coitado, nunca viu de perto o espetáculo do marketing de afiliadas, mas já avisava: o capitalismo se encarrega de moldar até nossos sentimentos. Pois bem: na série, as meninas aprendem a andar, falar, pensar e, pasme!, até a sentir tudo direitinho. Tudo para alcançar a meta do mês. Irônico, não é? É o prazer engarrafado e distribuído em doses mensais.
Ter como pano de fundo o mundo rural coreano não é só cenário, é palco de tragédia: juventude fugindo para a cidade, empregos que se esvaem, comunidades empobrecidas à mercê do acaso. O “trabalho honesto” surge como grande salvação. Mas mal respiramos e já sacamos que não há libertação alguma: é apenas outra embalagem para o mesmo pacote sórdido de sempre: mulher reduzida a mercadoria, servindo aos desejos alheios como oferenda num altar de conveniência.
Ver essa série é como encarar um espelho da nossa sociedade, só que coreano, legendado e com um filtro de drama tamanho família. Em Soo‑yeon, reconhecemos muitas de nós: brasileiras, asiáticas, urbanas ou rurais, todas os dias vendendo não só imagem, mas paciência e até sentimentos, só para serem levadas a sério, pagas ou, ao menos, respeitadas. Elas sorriem por fora, mas por dentro seguram um grito que parece ter vontade própria. Vendem mais que produtos: oferecem presença, atenções, cuidados, tudo amarrado num embrulho de “liberdade feminina” que, lá no fundo, fede a armadilha. E, no gran finale, ainda recebem o tapa: “Vocês têm sorte de estar fazendo o que amam”. Quem sabe um dia esse ‘amor’ venha com férias e plano de saúde.
Giovana Freire é pedagoga em formação pela UCAM e historiadora em formação pela UFRRJ.




2 Comentários
muito bom o artigo.
Delicioso de ler!